No seu primeiro discurso do 5 de outubro, o Presidente da República, António José Seguro, optou por não se centrar tanto na ética republicana, mas mais no apelo à mudança de cultura política com vista a entendimentos interpartidários. Já Carlos Moedas, presidente da Câmara de Lisboa, defendeu que “o espírito republicano não pertence a um partido”, “nem a uma só memória”, mas é sim “uma forma de servir Portugal, de amar a coisa comum mais do que a coisa própria”.
Na Praça do Município, em Lisboa, onde há 116 anos se proclamou a República, o Presidente da República, António José Seguro, no seu primeiro discurso nas comemorações do 5 de Outubro, fez um forte apelo à mudança de cultura política em Portugal, defendendo que os entendimentos estáveis e os compromissos interpartidários são “indispensáveis” para o futuro do país. A intervenção ficou marcada por um pedido direto para o fim de disputas políticas inconsequentes.
Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, o primeiro a discursar, alertou que a República está “na vida local” e que não morre apenas quando é atacada, mas quando os cidadãos deixam de acreditar nela.
“Uma República não morre apenas quando alguém a ataca, começa a morrer quando os seus cidadãos deixam de acreditar nela, quando as leis passam a ser vistas como obstáculos, quando a prudência se confunde com medo”, começou por referir no seu discurso Carlos Moedas, anfitrião pela 5.ª vez da cerimónia de comemoração do 5 de Outubro, na Praça do Município, em Lisboa.
O autarca apontou “o partidarismo cego “,” o discurso radical” e “a cultura da impunidade” como “sinais desse afastamento”. “A causa comum deixa de nos unir e cada um fica apenas com a sua causa”, vincou o presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML).
O autarca defendeu que “o espírito republicano não pertence a um partido”, “nem a uma só memória”, mas é sim “uma forma de servir Portugal, de amar a coisa comum mais do que a coisa própria”.
Carlos Moedas salientou que o principal desafio em Portugal, atualmente, é o da habitação, desafiando os presentes a deixarem-se de “lutas ideológicas”.
Moedas diz querer centrar a sua intervenção naquilo que mantém uma República viva, mas também nas ameaças que podem conduzi-la ao declínio. Recordando a proclamação da República por José Relvas, em 1910, o autarca destacou a promessa de uma sociedade assente na educação e na igualdade, capaz de transformar “súbditos em cidadãos”. É essa ideia de uma República que pertence a todos que considera ser a sua “promessa maior”, sublinhando, contudo, que não basta proclamá-la: exige “devoção”.
Para Moedas, o enfraquecimento de uma República não acontece apenas quando é diretamente atacada. Pode começar também quando os cidadãos deixam de acreditar nas suas instituições e nos seus valores. Nesse contexto, apontou o “partidarismo cego”, o “discurso radical” e a “cultura da impunidade” como sinais desse afastamento. Mas identificou ainda uma ameaça menos visível e, por isso, mais perigosa: “a indiferença”.
50 anos de poder local
A propósito dos 50 anos do poder local democrático que se assinalam este ano, Moedas lembrou que foi numa casa do poder local – nos Paços do Concelho de Lisboa – que a República foi proclamada.
“E é na vida local que, todos os dias, os cidadãos a encontram. Na rua, na escola, no centro de saúde, no serviço que responde, ou na fila que não anda”, vincou.
“A república é um tecido. Tece de fios pequenos: a associação de moradores, os bombeiros voluntários, a junta de freguesia, a coletividade, o professor que fica depois da hora ou aquele vizinho que sobe as escadas com as compras da vizinha mais idosa”, acrescenta Moedas.
Para o autarca, a República tem de dar razões aos cidadãos para “que a amem”, sendo posta à prova na rua, salientando a segurança, em casa, destacando a habitação como o maior desafio da atualidade que não se resolve “em lutas ideológicas”, e no Estado social local.
“A República nasceu nesta varanda e vive ou morre na rua”, concluiu.
Seguro pede “nova cultura política”
Por seu turno, o Presidente da República, neste seu primeiro discurso enquanto chefe de Estado no Dia da República, pediu uma nova cultura política de entendimentos e compromissos interpartidários para várias legislaturas, defendeu a importância da estabilidade política e saudou a aproximação entre Governo PSD/CDS-PP e PS sobre o Orçamento do Estado.
António José Seguro insistiu na necessidade de “soluções duradouras” e exortou os atores políticos a abandonarem “uma cultura de trincheiras” e adotarem “novos comportamentos”.
“Portugal precisa de uma nova cultura política, com base em entendimentos e compromissos interpartidários, focada na resolução concreta dos problemas das pessoas e numa visão estratégica para Portugal. Agir sobre o curto prazo com uma ideia de futuro para Portugal obriga a políticas públicas que se apliquem em várias legislaturas. Não podemos estar sempre a voltar ao início”, afirmou.
“Este é o tempo da política, não é o tempo da tecnocracia “, diz, enfatizando a importância de” vencer a inércia” e” enfrentar bloqueios”.








