Manuel Varges, primeiro presidente da Câmara Municipal de Odivelas, relembra os obstáculos enfrentados desde a criação do concelho, destacando a dívida herdada de 56 milhões de euros e a ausência de apoio financeiro do Governo na instalação do novo município.
Varges explica que, apesar da aprovação da criação do Município por todos os partidos na Assembleia da República, houve resistência da Câmara de Loures e do Partido Socialista local, que se opuseram à autonomia de Odivelas. O então presidente de Loures, Demétrio Alves, demitiu-se por discordar da atribuição de poderes ao novo presidente da Comissão Instaladora de Odivelas.
O processo de partilha de bens entre Loures e Odivelas foi complexo, com a transferência de trabalhadores e meios, mas também com a atribuição a Odivelas de 43% das dívidas de Loures, apesar do território corresponder a apenas 18% da área do município original. Varges sublinha que Loures realizava poucos investimentos na zona de Odivelas, com exceção da Biblioteca Municipal.
O presidente destaca a dificuldade de diálogo com Loures, que demorou cerca de oito meses a enviar os processos administrativos, e a ausência completa de apoio técnico ou financeiro do Governo, contrariando o previsto no decreto-lei que acompanhou a criação do município.
Para gerir a dívida, Manuel Varges negociou com a Caixa Geral de Depósitos um acordo que permitiu pagar apenas os juros durante cinco anos, possibilitando investimentos em projetos como as Colinas do Cruzeiro e assegurando receitas municipais futuras.
Entre as prioridades do mandato, Varges identificou a regularização das Áreas Urbanas de Génese Informal (AUGI), a resolução das cheias na Ribeira de Odivelas, a melhoria das acessibilidades rodoviárias e a criação de bem-estar social para a população.
Relativamente às AUGI, o município assumiu a liderança do processo, contratando uma equipa especializada que conseguiu legalizar 70% dos bairros clandestinos em sete anos, contrariando a oposição da CDU, que preferia manter a situação de expectativa dos moradores.
Na área das acessibilidades, Varges recorda a melhoria do trânsito com a construção de várias rotundas, o alargamento de avenidas e a requalificação da estrada entre Caneças e Odivelas, graças à intervenção do ministro Jorge Coelho. Destaca também a negociação com o Governo para alargar o leito da Ribeira de Odivelas, eliminando as cheias que afetavam várias zonas do concelho.
Sobre a chegada do metro a Odivelas, considera esta uma vitória histórica, pois o concelho foi o primeiro a ter uma estação fora de Lisboa. Ressalta o contributo do presidente da Junta de Freguesia, Vítor Peixoto, na pressão sobre o Governo para concretizar o projeto.
Outras obras relevantes incluem a construção dos centros de dia da Póvoa de Santo Adrião, Pontinha e Olival de Basto, a criação de serviços para a comunidade educativa, como patrulheiros escolares e refeições gratuitas até ao 6.º ano, além do clube do Movimento Sénior, que conta com 800 participantes.
Varges lamenta o encerramento do Odivelas Futebol Clube e a perda do estádio municipal, atribuindo a situação a má gestão do clube e a falta de cumprimento de acordos, nomeadamente na cedência de terrenos ao Sporting, que não pagou a renda acordada.
Sobre a sede da Câmara, a Quinta da Memória, explica que optou pela zona histórica da cidade, perto do Mosteiro de Odivelas, adquirindo terrenos e negociando com o clube local para a construção de novos equipamentos desportivos.
Manuel Varges defende que a junção de freguesias urbanas, como a Pontinha com Famões, não faz sentido, por juntar realidades sociais distintas, e considera que a fusão só seria adequada para municípios pequenos do interior.
Relativamente ao reconhecimento do seu trabalho, afirma que é amplamente reconhecido pela população de Odivelas, independentemente das cores políticas, e que a sua homenagem com a Medalha de Mérito de Ouro foi aprovada em 2016, depois de ter sido recusada por alguns elementos do Partido Socialista local.
Sobre os sucessores, elogia o atual presidente Hugo Martins, que considera seu “delfim político”, destacando a sua inteligência, fidelidade e o trabalho desenvolvido, incluindo a construção de escolas e outros projetos.
Manuel Varges conclui que partiu da estaca zero e que o início do município exigiu muito trabalho para colocar Odivelas nos eixos, com objetivos claros e concretizados, como a regularização das AUGI, a melhoria das acessibilidades e a promoção do bem-estar social.
NR: Excerto de entrevista a publicar em Caderno Temático Digital | Odivelas


