Jorge Mendes relembra luta pela autonomia de Odivelas

Jorge Mendes, fundador do Movimento Odivelas a Concelho (MOC), recorda a luta que conduziu à autonomia do município de Odivelas, iniciada em março de 1996 como reação ao que consideravam uma subvalorização da cidade no concelho de Loures.

Segundo Mendes, o movimento nasceu porque Odivelas era “a gata borralheira do concelho”, contribuindo com 42% das verbas e recebendo apenas 5% dos investimentos, o que deixava ruas por pavimentar e vários buracos por todo o lado. A oposição do presidente da Câmara de Loures na altura, Demétrio Alves, que boicotava Odivelas por razões políticas, também foi um dos motivos para avançar com a criação do movimento.

O núcleo duro do MOC foi constituído por Jorge Mendes, Carlos Lérias e Vítor Peixoto, este último presidente da junta de freguesia de Odivelas, que apesar de não integrar oficialmente o movimento teve um papel decisivo no processo. Mendes explica que Peixoto não quis liderar a Comissão Instaladora da Câmara de Odivelas para cumprir o mandato como presidente da junta, e ele próprio recusou avançar para a liderança porque não tinha jeito para campanhas eleitorais e estava motivado por um ideal.

O jurista Edgar Valles, que integrou o movimento numa fase posterior, concorda que o MOC surgiu numa altura política propícia, em que outras localidades, como Vizela, lutavam pela autonomia. Valles acrescenta que, apesar de a população não estar mobilizada nem envolvida, o movimento superou os entraves através de uma grande operação de marketing.

Jorge Mendes destaca ainda o papel fundamental da comunicação social na divulgação da causa, que considera ter sido o “12º elemento do MOC”. Tendo trabalhado na Rádio Comercial e na RTP, conseguiu apoio para dar entrevistas e reportagens, o que contribuiu para colocar Odivelas na agenda nacional. De entre os jornalistas, realça a colaboração da jornalista Manuela Ferreira, da agência Lusa, que difundiu inúmeras notícias sobre o movimento.

Sobre a liderança da Comissão Instaladora, Mendes afirma que o ministro Jorge Coelho queria que Vítor Peixoto fosse presidente, mas este recusou para cumprir o mandato na junta de freguesia, demonstrando compromisso com os eleitores. Peixoto também teve um papel importante na pressão ao Partido Socialista na Assembleia da República para apoiar a autonomia.

Mendes sublinha que, apesar de ter recebido críticas por não contactar os partidos em Loures, preferiu dirigir-se diretamente à Assembleia da República, contando com o apoio da comunicação social para promover o MOC. Recorda que, apesar de Peixoto ter pensado que Mendes seria seu sucessor, este não gostava de campanhas eleitorais e afastou-se desse propósito.

O fundador do movimento reconhece a dívida de gratidão ao papel de Vítor Peixoto também na chegada da linha amarela do metro a Odivelas, que considerou fundamental para o desenvolvimento da cidade.

Jorge Mendes insiste que as suas declarações são baseadas em documentos e provas concretas, e não meras opiniões, e recapitula que o MOC começou com um pequeno grupo de cidadãos, tendo feito reuniões iniciais de forma discreta. Destaca ainda o papel do Barão das Neves, atual presidente da Associação Senado de Odivelas, nas deslocações à Assembleia da República.

Edgar Valles conclui que “o pai do concelho de Odivelas foi o Jorge Mendes”.

Quanto à atual gestão municipal, ambos consideram que Hugo Martins é o homem certo para o cargo. Valles destaca a sua capacidade de trabalho e dedicação, enquanto Mendes o considera um excelente autarca, embora acredite que está mal rodeado de colaboradores que não estão ao seu nível, apontando o dedo aos “tecnocratas que mandam mais do que os políticos”.

NR: Excerto de entrevista a publicar em Jornal Digital | Olhar Odivelas nº 1

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