BAIRRO DAS CAIXAS EM ALVALADE PEDE UMA CARREIRA DE BAIRRO

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Numa altura em que se fala «tanto da mobilidade», os moradores do Bairro das Caixas, em Alvalade, apenas pedem uma carreira de bairro que lhes permita ir às compras ao mercado.

Nos finais dos anos 50 do século passado, um bairro de linhas modernistas foi erguido em Alvalade. Chamaram-lhe Bairro das Caixas, porque foi financiado pela então Caixa de Previdência para alojar funcionários públicos.

Passados mais de 60 anos, o sossego deste antigo bairro social é cobiçado por muitos que aí desejam comprar ou arrendar habitação «para viver», o que tem originado alguma especulação imobiliária e, mesmo em tempo de pandemia, um facto é que os preços dos imóveis dispararam.

Estrategicamente situado, entre Entrecampos e a Avenida de Roma, o bairro sempre manteve o «estatuto» de pequena aldeia, «implantada» numa zona de habitação para a classe média/alta. Nos «dias de hoje», com uma população envelhecida, com fraca mobilidade, os problemas do bairro residem, essencialmente, nos transportes e na falta de comércio local. «Da mesma forma que criaram as chamadas Carreiras de Bairro em outras zonas de Lisboa, também podiam criar aqui na Bairro das Caixas uma carreira que nos levasse ao mercado de Alvalade e a outras zonas da freguesia, onde exista comércio porque aqui não há nada», lamentam alguns residentes.

Para os mais velhos, esses são dois «senãos» que impedem uma melhor qualidade de vida dos residentes. Aliás, à semelhança do que afirmavam há um ano, em resposta a um inquérito de Olhares de Lisboa, os residentes, continuam a queixar-se que, «para as pessoas, com dificuldade em deslocar-se é mais difícil ir a certos locais. Por exemplo, para irem à farmácia, têm que atravessar a Avenida de Roma, porque aqui não há», salienta Maria da Conceição, com cerca de 80 anos e a morar perto do palácio dos Coruchéus. O mesmo sucede com as deslocações ao centro de saúde, que «fica na outra ponta».

Apesar de entender as dificuldades de mobilidade, que transtornam a vida dos mais velhos, Francisco Ventura, proprietário do café 9 A Ventura, na Rua António Patrício, defende que «o bom deste bairro é o pouco movimento de carros». Contudo, reconhece que, eventualmente, seria conveniente criar uma carreira de bairro que servisse os moradores do bairro com maiores dificuldades de locomoção.





Intervenções são sempre bem-vindas

Já para Joaquim Vasco Almeida, o problema principal prende-se com o estacionamento. Apesar de estar a ser construído um parque, com capacidade para 43 lugares, com entrada pela Rua António Patrício, o problema vai manter-se salienta.

Mas para Conceição Santos, funcionária pública, o que torna este bairro atraente são as acessibilidades, o sossego, a segurança e «ter algum comércio por perto», sublinhando que estão a ser desenvolvidas pequenas intervenções que pretendem melhorar a mobilidade pedonal, criar espaços de lazer, valorizar os espaços verdes (com novas plantações arbóreas, arbustivas e herbáceas), bem como estacionamento automóvel, de motociclos e bicicletas.

Do ponto de vista de muitos, as intervenções nos espaços públicos «são sempre bem-vindas». Contudo, lamentam que algumas, nomeadamente a requalificação das envolventes do palácio dos Coruchéus, não sejam as «mais apropriadas».

«Criaram, e muito bem,  um pequeno parque infantil nos Coruchéus mas, em vez de colocarem um piso de borracha amortecedor para parques infantis, para assegurar a segurança das crianças, colocaram areia, onde muitas vezes se encontram dejetos de cães», afiança Lígia Carla, uma utilizadora da Biblioteca dos Coruchéus, recomendando à Junta de Freguesia que rapidamente corrija esse erro, de molde a permitir que ela volte a levar o filho a brincar nesse espaço.

Segundo a Junta de Freguesia, está a ser desenvolvido um projeto revisto, o qual conta já com o parecer positivo da Câmara Municipal de Lisboa, que prevê a plantação de 100 árvores (de arruamento e de fruto, em pomares) e de espécies arbustivas e herbáceas; criação de 11 talhões hortícolas; aumento da área permeável; criação de um parque infantil junto à escola; disponibilização de 45 lugares de estacionamento para residentes (a maioria dos quais na bolsa já existente junto à Rua Antónia Pusich); criação de novos acessos pedonais, incluindo um acesso entre a Rua João Lúcio e a bolsa de estacionamento na António Pusich.

O responsável da Biblioteca dos Coruchéus, Hélder Ferreira, que recorda que, recentemente, no jardim da Biblioteca dos Coruchéus inaugurou-se um mural em homenagem ao músico João Ribas, referência do punk nacional, salienta que este espaço é «uma grande mais valia para moradores e visitantes», contribuindo para o rejuvenescimento do bairro. Apesar das restrições impostas pela Direção Geral de Saúde, a biblioteca e os espaços envolventes, designadamente a Galeria Quadrum, fundada por Dulce D’Agro, e que está cada vez menos sozinha na representação das artes em Alvalade, continuam a ser pólos de atração no bairro.

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