José Luís Carneiro juntou-se à família Soares para homenagear “pai da democracia” na Amadora

No Dia da Liberdade, 25 de Abril, a Câmara Municipal da Amadora reuniu algumas das figuras de maior relevo político do universo socialista para inaugurar no Parque da Liberdade uma peça artística (diorama) de homenagem a Mário Soares, da autoria de Alexandre Farto, conhecido por VHILS. O secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, esteve ao lado da família de Soares, de forma discreta, não usando da palavra. Vítor Ferreira lembrou o legado de Mário Soares e recordou que a Amadora foi o primeiro município a ser criado no pós 25 de Abril.

A inauguração foi antecedida pelo hastear da bandeira, no exterior dos Paços do Concelho, com a participação da Banda de Música da SFCIA – Sociedade Filarmónica Comércio e Indústria da Amadora, e da sessão solene comemorativa do 52.º Aniversário do 25 de Abril, que teve lugar nos Recreios da Amadora.

Como foi lembrado pelo presidente do Município, a obra agora inaugurada homenageia uma das figuras determinantes da história contemporânea portuguesa, considerado o “pai da democracia” no nosso país.

Mário Soares destacou-se como protagonista na luta contra a ditadura, no processo revolucionário e na consolidação do regime democrático após o 25 de Abril de 1974. Fundador do Partido Socialista, primeiro-ministro e Presidente da República, foi igualmente um dos principais impulsionadores da integração europeia de Portugal, “contribuindo de forma decisiva para a afirmação do país no contexto internacional”.

Durante a cerimónia, o presidente da Câmara Municipal da Amadora, Vítor Ferreira, salientou que o Parque da Liberdade, “que integra o Parque Urbano da Atalaia e que reabriu recentemente ao público, é o palco ideal para celebrarmos a memória de quem tanto lutou pela nossa democracia”.

Esta iniciativa inseriu-se no programa das comemorações do 52.º aniversário do 25 de Abril na cidade da Amadora, que, como recordou Vítor Ferreira, foi o primeiro município criado após o 25 de Abril de 1974 – a sua criação data de 11 de setembro de 1979.

Esta cerimónia celebra, assim, “não apenas um homem, mas a própria conquista da dignidade democrática e a afirmação de um país livre, plural e voltado para o futuro”.

Esta peça artística “não é apenas um tributo ao homem; é uma memória constante dos valores da liberdade e da participação cívica”, concluiu o autarca.

João Soares recorda legado do pai

A família de Mário Soares associou-se à homenagem. Os dois filhos do antigo primeiro-ministro e Presidente da República e um dos seus netos não quiseram faltar ao ato simbólico e agradeceram o gesto “muito bonito do presidente da Câmara da Amadora”, disse João Soares aos jornalistas, aproveitando para elogiar os autarcas da Amadora, “que têm feito um trabalho absolutamente notável pelo concelho” e “provado a sua capacidade de gerir a autarquia”.

Em relação à homenagem propriamente dita, João Soares considerou que a instalação da obra que retrata o seu pai “é absolutamente justa”, porque “foi um homem que marcou a história do século XX português de uma forma que tem poucas equivalências” do ponto de vista cívico e de luta pela liberdade no país. João Soares lembrou também o papel de Álvaro Cunhal na luta contra a ditadura, tendo sido “também um homem muito importante”, nos anos de chumbo de combate ao salazarismo e um lutador determinado ao serviço de uma causa (comunismo), mas “que depois se provou não resultar”.

Para João Soares, o “grande homem da liberdade em Portugal foi indiscutivelmente Mário Soares”, anotou.

Em relação à obra do artista, João Soares mostrou-se “muito agradado com o resultado final” da peça, declarando-se admirador do trabalho de VHILS, e reconhecendo que “o meu pai teria gostado certamente da obra”, porque era um homem “muito ligado à cultura, aos livros e à arte”.

“A liberdade estava-lhe colada à pele”

“É uma homenagem lindíssima, não podia haver melhor! Está lá o sorriso e o olhar atento do meu pai” Foi desta forma emotiva que Isabel Soares, filha do homenageado e presidente do Conselho de Administração da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, começou a sua intervenção. “No Parque da Liberdade. Nada mais apropriado a ele (Mário Soares), que foi um combatente pela liberdade durante toda a sua longa vida. A liberdade estava-lhe colada à pele”, declarou, lembrando que, mesmo quando esteve preso em Caxias e no Aljube, Mário Soares “nunca perdeu a esperança”. “Quando o íamos visitar, nunca se mostrou abatido e era ele que nos animava a nós”.

Nesse contexto, Isabel Soares relembrou um dos lemas do pai: “Só é vencido quem desiste de lutar. Portanto, nós não podemos nunca desistir de lutar e temos de continuar a lutar, para que a liberdade continue, para que a democracia continue, e para que não apaguem a memória. É fundamental que não se apague a memória e que se passe isso aos nossos jovens”, defendeu.

A história de ascensão de um neto de alentejanos pobres 

Alexandre Farto, conhecido por VHILS, autor do diorama, recordou os pais, migrantes do interior do Alentejo, que nos anos 80 do Século XX rumaram para o litoral, e da sua própria experiência com os serviços públicos e a vivência no bairro, e de como o 25 de Abril permitiu a construção do “pensamento coletivo que me permitiu chegar onde cheguei e que me permite trabalhar em muitas partes do mundo”, esclareceu.

O artista partilhou que conviveu desde cedo com pessoas de muitas zonas do país e do estrangeiro, e que a partilha do mesmo espaço, das mesmas escolas públicas, “o enriqueceu”, destacando ainda a importância de Mário Soares como exemplo de alguém que “conseguiu criar pontes onde ninguém as conseguia ver”, explicou.

O artista aproveitou para criticar aqueles que, à semelhança das vivências dos alentejanos que foram obrigados a migrar para a Grande Lisboa, maltratam os imigrantes, que “estão a passar o mesmo que os nossos avós”.

Na inauguração estiveram presentes diversas personalidades, nomeadamente João Soares, José Luís Carneiro, secretário-geral do Partido Socialista, mas também os ex-presidentes da Câmara da Amadora, José Raposo e Carla Tavares.

Com cerca de 5 metros de comprimento, 2,5 metros de altura e um peso aproximado de 7 toneladas, esta escultura em betão, denominada “Ponte”, assume a forma de um diorama de grande escala, conferindo-lhe uma solidez e durabilidade apropriadas para o espaço público e integrando-se no local como um elemento permanente de evocação e memória coletiva.

A

obra insere-se na prática artística de VHILS, reconhecida pela exploração da memória e da identidade através da matéria.

A escultura propõe-se, assim, não apenas como um retrato, mas como um dispositivo de memória, que inscreve no espaço urbano a importância de Mário Soares no percurso democrático do país.

A sua implantação no Parque da Liberdade reforça a dimensão cívica da intervenção, criando um ponto de encontro entre arte, história e espaço público, acessível à comunidade e integrado nas vivências quotidianas do território, sublinha o Município.

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