O Município de Lisboa atribuiu hoje, dia 6 de julho, o nome de uma rua à editora dinamarquesa Snu Abecassis. Carlos Moedas e Marcelo Rebelo de Sousa consideraram que a mulher “insubmissa” que afrontou o regime e os costumes da época está finalmente imortalizada numa artéria da capital.
A cerimónia de inauguração da Rua Snu Abecassis, na Freguesia do Lumiar, juntou familiares e amigos da fundadora da Dom Quixote numa cerimónia marcada pelos elogios ao papel da editora dinamarquesa no rompimento do status quo da ditadura e no pós-25 de Abril.
Tratou-se de uma homenagem toponímica da edilidade à editora de origem dinamarquesa, fundadora da Publicações Dom Quixote e uma das personalidades mais marcantes da edição e da vida cultural portuguesas do século XX, cujo legado permanece associado à promoção da literatura, da liberdade de expressão e da cultura em Portugal.
Carlos Moedas e Marcelo Rebelo de Sousa elogiaram a coragem da mulher que viveu uma história de amor memorável com o primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro e que com ele desapareceu no fatídico acidente aéreo de Camarate, aos 40 anos de idade.
A filha da homenageada, Rebecca Abecassis, que perdeu a mãe quando tinha 9 anos, lembrou a memória de uma “mulher corajosa”, que lutou “pelo bem comum” e “os valores sólidos da democracia”. Rebecca Abecassis agradeceu a homenagem da cidade à sua mãe, que “durante a sua curta vida, conseguiu deixar um legado à família e aos seus descendentes: Coragem, determinação, a luta pelo bem comum e por valores muito sólidos, e ainda, não menos importante, a luta pela democracia. Penso que foi esse o seu principal legado”.
Rebecca Abecassis elogiou ainda o papel de Vasco Abecassis, seu pai, que assistiu à cerimónia, com quem Snu fundou a Dom Quixote, e que “esteve sempre a seu lado”, em “todos momentos” da sua curta existência.
“Ato de justiça” a uma mulher “insubmissa”
Para Carlos Moedas, atribuir o nome de Snu Abecassis a uma rua lisboeta “é, acima de tudo, um ato de justiça histórica”, afirmou, esta segunda-feira, ao descerrar a placa que assinala a nova artéria, na freguesia do Lumiar, na presença de familiares da homenageada e dos embaixadores da Dinamarca e da Suécia.
A jovem editora dinamarquesa chegou a Portugal em 1965, em plena ditadura, que desafiou o regime ao fundar as Publicações Dom Quixote, dando à estampa livros de intelectuais opositores do Estado Novo.
“Não nasceu em Portugal, mas com ela Portugal renasceu de certo modo”, afirmou o presidente da Câmara da capital. Moedas explicou ter querido “celebrar um espírito” que descreveu em três atos de coragem e que, a seu ver, “ajudou a pavimentar a nossa democracia”. Snu teve, afirmou o edil, a coragem de enfrentar os costumes; a de “pensar durante os anos sombrios da ditadura”; e a de “acreditar em Portugal”, que ajudou a puxar para a Europa.
Ebba Merette Seidenfaden nasceu em Copenhaga em 1940, para quem assumiu, desde muito nova, o papel “de mulher insubmissa, que publicou o que quis e deu voz aos que não a tinham”, defendeu Moedas, para destacar uma mulher “independente e cosmopolita”, que trouxe “luz” a um país que vivia submergido num obscurantismo que raiava a época medieval.
“Snu Abecassis demostrou que, mesmo perante o perigo da ditadura, ela estava sempre ao lado da liberdade. Foi, nesse aspeto, uma lufada de ar fresco; foi alguém que via a vida a cores num país que, em grande medida, ainda vivia a preto e branco”.
Nasceu dinamarquesa, em 1940, mas “redefiniu o papel da mulher na sociedade portuguesa e acabou por ter um peso enorme na liberdade cultural e na consolidação da democracia” no nosso país. O nome de Snu Abecassis está agora eternizado numa rua do Lumiar.
“Aprendeu português sozinha e, com apenas 25 anos, fundou a Dom Quixote, em 1965. Não foi um capricho, foi a audácia de uma mulher”, que “trouxe o mundo para dentro de um país fechado. Rasgou a cortina de fumo da censura. Fez do papel e da tinta as armas mais poderosas contra o obscurantismo”, acrescentou Carlos Moedas.
“Espantosamente corajosa”
O antigo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, também não poupou nos elogios à editora dinamarquesa. Começando por lembrar uma conversa tida com Isabel II, rainha de Inglaterra, Marcelo Rebelo de Sousa parafraseou as palavras da monarca para fazer o retrato do Portugal encontrado por Snu Abecassis quando aportou ao país, por via do casamento com Vasco Abecassis. “Pais de gente boa, vestida de escuro, governado por um senhor muito antigo (…) Quando Snu chegou a Portugal, o senhor muito antigo ainda governava, mas passou a ser afrontado pela rebeldemente pioneira” editora dinamarquesa.
O ex-Presidente considerou Snu – um apodo posto pelo pai e que significa “esperta” em dinamarquês — como alguém “espantosamente bonita, espantosamente inteligente, espantosamente culta”, mas, acima de tudo, “espantosamente corajosa”, como alguém que sentir-se-ia “mal se não fizesse uma rutura (com o regime)”.
Marcelo lembrou ainda o papel da editora que ““deu voz aos opositores da ditadura”, como alguém que partiu demasiado cedo, mas deixou marcas profundas na sociedade portuguesa.
“Vou usar uma frase batida que diz que os deuses levam cedo aqueles mais amam. Deixam uma impressão muito mais forte do que aqueles que acabam batidos pela vida, de pantufas, a ver as redes sociais ou a televisão”.
Para Marcelo Rebelo de Sousa, Snu Abecassis representou um abanão do regime e nos costumes do país, tendo tido um papel preponderante na abertura de mentalidades e na construção de um legado cultural que perdura até aos dias de hoje.
“Eis como alguém chegou (ao país) tão novo, fez tanta coisa, partiu cedo e fica para sempre na nossa memória”.
De acordo com Carlos Moedas, Snu Abecassis teve um papel determinante na difusão e promoção da cultura portuguesa enquanto editora, tendo fundado, em 1965, as Publicações Dom Quixote. O seu olhar inovador e progressista foi de grande significado e importância para o pensamento político e social do país, por via de publicações que desafiavam a censura e promoviam o debate democrático, em especial no período que antecedeu a Revolução do 25 de Abril de 1974.
Pela chancela da Dom Quixote foram publicados livros de autores como José Saramago, Eduardo Lourenço, Alexandre O’Neil, José Cardoso Pires ou Natália Correia, personalidades cujo relevo e contributo para o enriquecimento do panorama cultural e político de Portugal fora determinante no despertar de consciências para o debate em democracia.
A 4 de dezembro de 1980, “quando consolidava o seu trabalho na Dom Quixote, e acompanhava de perto a evolução política do país ao lado de Sá Carneiro, ambos perdem a vida num acidente aéreo em Camarate (…). A sua morte prematura provocou um profundo sentimento de perda no meio cultural e intelectual português”, considerou o autarca.
Ebba Merete Seidenfaden, conhecida por Snu Abecassis, nasceu na Dinamarca, a 7 de outubro de 1940 e morreu a 4 de dezembro de 1980, em Camarate, distrito de Lisboa.

