Enoport quer reforçar a ideia de Bucelas “vila-vinho”

A Enoport United Wines planeia posicionar a localidade de Bucelas como uma referência internacional de enoturismo através do conceito de “vila-vinho”. O grupo detém as históricas Caves Velhas e a emblemática Quinta do Boição, localizadas no coração desta Região Demarcada conhecida globalmente pela excelência da casta branca Arinto.

Nos próximos dez anos, vai intensificar a aposta no enoturismo, mas também tem os olhos postos no ecoturismo na região de Bucelas. Nuno Santos, o CEO da empresa, revela que o objetivo é contribuir para dar maior notoriedade a Bucelas, delineando uma estratégia que envolve em simultâneo grandes investimentos em duas quintas do grupo e no edifício das Caves Velhas.

A Enoport Wines pretende revolucionar a oferta turística associada ao Arinto e vai reforçar a sua aposta no enoturismo, com a região de Bucelas a funcionar como “posto avançado” de uma estratégia pensada para ser executada num prazo de 10 anos. A Enoport Wines, uma empresa multiregional de vinhos que atualmente detém algumas das marcas de vinhos de Bucelas mais emblemáticas (Bucellas Caves Velhas DOC, Quinta do Boição DOC, entre outras), pretende transformar a região de Bucelas num destino de eleição para o enoturismo regional.

Em entrevista ao Olhar Loures, Nuno Santos, CEO da Enoport e natural de Viseu, no coração da região dos Vinhos do Dão, afirma ser um “verdadeiro apaixonado” pela região de Bucelas. E diz que a casta Arinto “é realmente especial”, uma vez que tem a “várias particularidades” que a tornam “única” no mundo, tendo uma “plasticidade de tal forma ampliada”, que permite a produção de arintos novos e frescos, mas também arintos de guarda (envelhecidos) – o administrador revela que a Enoport tem vinhos muito antigos e vai lançar brevemente no mercado um arinto com 25 anos.

Por outro lado, Nuno Santos defende que os vinhos de Bucelas (feitos a partir de castas autóctones de Bucelas: Arinto, Rabo de Ovelha e Esganação) são néctares “altamente gastronómicos”, pelo que podem ser harmonizados com um sem número de iguarias e petiscos.

Para além dos arintos tradicionais, a companhia está também apostada na produção de vinhos licorosos e espumantes, resultando todos eles “em vinhos de excelente qualidade”. Aliás, o administrador reforça que “é difícil fazer um mau vinho da casta Arinto”, por ter uvas e bacelos “altamente resistentes” às intempéries e ao míldio, mas também pelo “terroir” ímpar que se encontra em Bucelas, protegido dos ventos por montes e banhado por muitos dias de sol durante grande parte do ano.

Na qualidade de Vice-presidente da Associação de Produtores e Engarrafadores de Bucelas (APEB), Nuno Santos, engenheiro de profissão, defende que a agricultura sustentável e amiga do ambiente (produção integrada)  praticada nas quintas de Bucelas, além duma biodiversidade marcada por uma grande riqueza de fauna e flora, e o facto de se terem encontrado fósseis marinhos nos solos das quintas atestam que, outrora, esta zona já esteve submersa pelo mar o que contribui enormemente para a mineralidade, frescura, acidez e longevidade destes vinhos.

Não obstante os vinhos de Bucelas “não terem um grande peso na faturação anual da Enoport” – a companhia detém vinhos nas regiões demarcadas do, Dão, Vinhos Verdes, e Lisboa, e – que representam “uma clara aposta estratégica da empresa” para dar um novo impulso ao turismo associado à viticultura. A Enoport olha para Bucelas como uma “oportunidade” de reabilitar um esplendor passado, em que os vinhos desta região lourense eram consumidos por grande parte da realeza europeia.

“Queremos explorar as potencialidades dos ativos biológicos, dos vinhos, pois Bucelas perdeu protagonismo. Outrora, Bucelas dava ao mundo alguns dos vinhos mais apreciados, mas nos últimos anos deixou-se ultrapassar. Através da APEB, da Junta de Freguesia, da Câmara de Loures, da Confraria do Arinto, e contando com a estabilidade política existente, queremos falar a uma só voz, comunicando a história de toda uma região, voltando a pôr o Arinto de Bucelas na ribalta, no patamar de eleição que já teve no passado”.

Para dar corpo à estratégia de revalorização da “marca” Bucelas, a APEB pretende levar a cabo uma ação de marketing dirigida aos “nichos de mercado” presentes no distrito de Lisboa, mas também aproveitar a “proximidade à capital” para atrair “novos consumidores”, quer nacionais, quer os turistas que queiram “experienciar uma genuína demonstração cultural associada à produção de vinhos de excelência, feitos por gente que, há várias gerações, está intimamente ligada à cultura e produção de vinho”.

Caves Velhas herança secular

No caso particular da Enoport, Nuno Santos revela que empresa está apostada em transformar o edifício das Caves Velhas, no centro da vila, num espaço para eventos, adaptando as caves à realização de visitas guiadas para grupos de “até 200 pessoas”, passando a harmonizar os vinhos com a restauração.

“Queremos atrair pessoas entendidas na matéria, mas também despertar a curiosidade daqueles que se interessem por aprender mais sobre os processos de produção de vinhos únicos e especiais”, como os de Bucelas. A oferta passará por novos programas, alguns dos quais específicos para quem procura aprofundar o seu conhecimento no mundo dos vinhos.

Quinta do Boição no centro da estratégia

A Quinta do Boição tem atualmente cerca de 30 hectares, localizada às portas da vila de Bucelas é atravessada por dois canais que alimentam o Rio Trancão, a Ribeira de Murtinhais e a Ribeira do Boição. Possui simultaneamente vinhas de encosta/montanha e vinhas de baixa/vale e beneficia de um microclima muito particular e característico da região.

Neste particular, Nuno Santos, revela que tem desenvolvido experiências, nos últimos anos, para aprimorar a produção de espumantes e atingir níveis qualitativos equivalentes aos de Champagne, em França.

Atualmente, a Quinta do Boição, onde são produzidas as “joias da coroa” da casta Arinto da empresa, permite a receção de particulares ou grupos, disponibilizando uma série de atividades, bem como está disponível para a realização de eventos de pequena escala, onde seja possível a dinamização do mundo vínico dos DOC Bucelas e da casta Arinto.

Nuno Santos revela que este projeto foi candidatado ao Portugal 2030 – fundos comunitário -, mas que não quis “ficar à espera” da atribuição dos fundos da União Europeia e que já se adiantou na planificação de um projeto que prevê, a médio prazo, a duplicação da capacidade (100 visitantes para 200) e a incorporação de alojamento local para os visitantes da quinta pernoitarem no espaço e, desta forma, usufruírem de “uma experiência completa”, sem tempo cronometrado e com liberdade para degustarem os vários tipos de vinho produzidos nesta quinta.

Para além do alojamento e espaço de restauração é também objetivo construir um espaço de loja e museu, mas está também prevista numa segunda fase a instalação de uma unidade hoteleira dentro das instalações da quinta, completando-se, assim, o ciclo de investimentos projetados para a Quinta do Boição.

Nuno Santos vai mais longe e revela que tem o “sonho” de fazer de Bucelas uma “vila-vinha”, pois a quinta está praticamente dentro da localidade e reconhece “um potencial enorme” neste “diamante em bruto”, que “bem trabalhado” — em articulação com a APEB, as Caves Velhas, o Museu da Vinha, a Câmara e a Junta — pode representar uma “dinamização sem precedentes” de uma localidade e das suas gentes que têm inscrita no seu ADN a cultura do vinho.

Mas a Enoport tem ainda outro plano para “promover Bucelas como destino de natureza”. Trata-se do terceiro pilar da estratégia da empresa, que pretende reabilitar trilhos para caminhadas a partir da Quinta da Torre. A herdade tem 50 hectares, 30 espécies de árvores, uma casa medieval do Séc. XIII, que a companhia quer reabilitar e abrir ao público.

O administrador assume que, com estes projetos concluídos, Bucelas passará a ser o lugar onde Lisboa vem usufruir de uma cultura fortemente associada à celebração da vida, brindando com vinhos da região, mas também no lugar onde Lisboa “vem respirar” numa zona “natural e de acentuada ruralidade” não sendo preciso “fazer centenas de quilómetros para estar no campo”.

A Enoport detém cerca de um terço da área de vinha de Bucelas e produz dos mais emblemáticos arintos da região com as marcas Caves Velhas e Quinta do Boição.

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