Quinta do Chão do Prado quer transformar Bucelas no jardim de enoturismo de Loures

O desenvolvimento de Bucelas como o grande jardim de enoturismo de Loures assenta na valorização do seu património vitivinícola único — a terra do Vinho Branco Arinto — combinada com a proximidade estratégica a Lisboa.

Para transformar esta visão num plano de ação estruturado, o produtor António Duarte Pinto, que tem em mãos a responsabilidade de continuar o legado familiar na Quinta do Chão do Prado, pioneira na produção de vinhos envelhecidos e espumantes na região demarcada de Bucelas, defende que a região necessita de ser conhecida por proporcionar “experiências” associadas à enocultura. Para robustecer esta estratégia é preciso que as quintas abram a porta à oferta de dormidas e de atividades na natureza.

Demarcada há mais de cem anos, a região vinícola de Bucelas tem vindo a crescer em procura e popularidade, em paralelo com a oferta de enoturismo. Licenciado em Marketing e Relações-Públicas, António Duarte Pinto não tem educação formal nem técnica em agronomia, mas assume que cresceu “no meio” das vinhas da família e que, desde sempre, o seu património genético e a paixão pelas vinhas foram a sua “formação”.

É já a quinta geração seguida a tomar conta da quinta vinícola que soma 12 hectares e 180 anos de vida. O seu trisavô foi João Camilo Alves, pioneiro nos vinhos de Bucelas, e, em 2019, decidiu seguir as pisadas do seu pai, António João Paneira Pinto, nos negócios da quinta.

Para trás deixou um emprego na banca, em Londres, assumindo o “legado familiar” que tem vindo a ser transmitido ao longo de cinco gerações. Apesar dos pergaminhos familiares na arte de produzir vinhos DOC de Bucelas e do “peso da herança”, o jovem produtor assevera que não se atemoriza e vai dar seguimento ao trabalho “de homens grandes que estiveram cá antes de mim, como o meu pai e os meus antepassados”.

Paulatinamente, António Duarte Pinto está a assumir as rédeas do negócio da Quinta do Chão do Prado, que produz vinhos biológicos e foi pioneira na produção de Bucelas Colheitas Tardias e espumantes, duas novidades criadas por António Pinto, pai do jovem produtor.

Este ano, vai lançar no mercado a sua primeira produção de autor, pelo que admite “alguma ansiedade” até ao momento de poder provar o “seu” vinho. Mas António Duarte já introduziu algumas novas vertentes no negócio familiar. Mandou construir uma sala de eventos para empresas e amantes do vinho, junto à adega. Revela que a experiência “tem sido um sucesso” e que “tem tido muita procura”, da parte de portugueses, mas também grupos de estrangeiros “entendidos” nas matérias vinícolas.

António Duarte conta que já recebeu na sua sala de enoturismo, com vista panorâmica para as vinhas biológicas da família, grupos de visitantes ilustres, como um conjunto de senadores norte-americanos onde se destacou Vern Buchanan e Ilhan Omar. “Esse grupo, de senadores democratas e republicanos, surpreendeu pela positiva porque sabiam muito de vinho e da nossa região de Bucelas. O senador Buchanan é um verdadeiro entendido e um homem muito simpático. A congressista democrata Ilhan Omar, que nasceu na Somália, lembrou as videiras do seu país”, confidencia, orgulhoso.

De resto, a quinta familiar não pretende “aumentar a produção”, mas sim apostar na manutenção da “qualidade e na diferenciação” ante a concorrência, exemplificando que o espumante da Quinta do Chão do Prado não pede meças ao champagne francês. “Já tivemos aqui algumas provas cegas, feitas por pessoas entendidas e mesmo alguns franceses, que elegeram o nosso espumante em vez do vinho produzido em França. Há uma qualidade excecional dos vinhos produzidos nesta região. Mas falta voltarmos a elevá-los ao patamar de antigamente”.

Visão holística do sector

Na visão do produtor, a região demarcada de Bucelas “é bem conhecida em alguns nichos de apreciadores”, mas falta uma visão holística sobre o setor. “Não faz sentido termos vinhos de excelência, mas não haver dormidas nas quintas. Quase todas as zonas de vinho já oferecem essa experiência. A APEB tem vindo a desenvolver uma estratégia concertada para criamos as condições para as quintas puderem passar a ter alojamento dentro dos espaços”, até porque os turistas do enoturismo querem “ter uma verdadeira experiência” dentro das quintas, desfrutando da natureza, sem pressas, e pernoitando nos espaços.

Para o produtor, importa enfatizar que a casta Arinto “é originária da região de Bucelas” por ser o sítio onde apresenta a maior variabilidade genética e onde encontra o seu “terroir” de eleição, produzindo vinhos com muita mineralidade e com acidez naturalmente alta fazendo com que o vinho se prolongue no tempo sem perder os pontos fortes tão característicos desta região.

António Duarte Pinto acrescenta que da “união entre os produtores” tem resultado uma estratégia que põe no centro a “valorização do vinho e da própria região”, dando lugar à “promoção de experiências associadas ao enoturismo”, com mais camas, mais experiências e uma maior variedade de ofertas. Dessa união de esforços conjunta, resultará num novo ciclo de desenvolvimento económico “para toda esta zona”, para os produtores e todos os setores económicos de Bucelas.

O produtor diz que tem o “sonho” de ajudar a fazer de Bucelas “o jardim de enoturismo no centro de Loures”.

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