Morte de Luís Represas causa onde choque no país

Depois de o país ter acordado hoje com a notícia da morte de Luís Represas, foram várias as figuras da política e da cultura nacional que prestaram homenagem ao mentor dos Trovante, partilhando memórias e homenagens ao legado do músico e cantor. O Presidente da República, António José Seguro, manifestou profundo pesar pela partida do “amigo”. Carlos Moedas homenageou um dos filhos pródigos da cidade de Lisboa, e um “dos homens mais generosos e admiráveis da cultura portuguesa”. 

Luís Represas morreu esta quarta-feira, dia 22 de julho, aos 69 anos, vítima de doença prolongada, anunciou a agência que representa o cantor e compositor lisboeta. O artista estava a comemorar 50 anos de carreira e tinha anunciado dois concertos nos coliseus de Lisboa e do Porto para abril de 2027.

Nascido em Lisboa, em 1956, Luís Represas foi um dos fundadores dos Trovante, em 1976, e o grupo permaneceu ativo até aos anos 1990, editando, por exemplo, “Baile no Bosque” (1981) e “Cais das Colinas” (1983), fortemente inspirados na música tradicional portuguesa.

Nas décadas seguintes, os músicos seguiram caminhos a solo e o grupo voltaria a reunir-se para alguns concertos esporádicos, nomeadamente em 1999, em 2006, em 2017 e em março passado, com atuações esgotadas em Lisboa e no Porto.

Da história de Luís Represas faz parte ainda o apoio à independência de Timor-Leste. A canção “Timor”, com música de João Gil e letra de João Monge, que vinha do álbum do grupo “Um destes dias” (1990), voltou a juntar os Trovante em 1999 e transformou-se num dos principais temas da luta que levou à independência timorense. A letra viria a ser traduzida para tetum, por Xanana Gusmão.

Em 2005, foi distinguido pelo Estado Português com a Ordem de Mérito – grau de Comendador.

Fausto Bordalo Dias, José Afonso, Carlos do Carmo, Bernardo Sassetti, Pablo Milanés, Ivan Lins, Martinho da Vila, Simone, Jorge Palma, Phil Collins, Compay Segundo, Gilberto Gil e Carlinhos Brown são alguns dos músicos com os quais Luís Represas colaborou.

Depois de o país ter acordado hoje com a notícia da morte do cantor, foram várias as figuras da política e da cultura que prestaram homenagem ao mentor dos Trovante, recordando memórias e homenagens ao legado de Luís Represas.

Presidente despede-se do “amigo” que “soube transformar a nostalgia em esperança”

O Presidente da República, António José Seguro, que está em visita oficial a Cabo Verde, não escondeu a consternação pela partida do seu amigo, escrevendo uma nota de pesar onde lembra um legado que fica a pertencer “à eternidade”.

“Há vozes que não pertencem apenas a quem as canta. Pertencem ao tempo, à memória e ao coração de um povo. A partida do Luís Represas não encontrará silêncio. Encontrará as canções que deixou acesas, como pequenas luzes sobre a vida de tantas gerações de portugueses. Encontrará melodias que continuarão a nascer em cada reencontro, em cada saudade, em cada instante em que alguém voltar a cantar as palavras que ele nos ofereceu”, sublinhou o chefe de estado.

Assinalando que “partiu o homem, ficou a voz, uma voz que soube transformar a nostalgia em esperança, a simplicidade em beleza e a música num lugar onde Portugal tantas vezes se reconheceu. Das praças aos palcos, dos dias de festa aos momentos de recolhimento, o seu talento ensinou-nos que há canções capazes de vencer o tempo”.

Para António José Seguro, “há vidas que terminam. Há músicas que pertencem à eternidade. As músicas do Luís Represas são dessas. Porque há artistas que deixam discos. Outros deixam memória. Os maiores deixam um país a cantar. O Luís Represas será sempre um dos nossos maiores. E Portugal, em dor, canta as suas canções”.

“Em nome de Portugal”, o Presidente assumiu “curvar-se perante a sua memória com gratidão”, enviando um “abraço com profunda solidariedade” à família, os amigos, os companheiros dos Trovante e todos aqueles que “hoje sentem que perderam alguém da sua própria casa, da nossa própria casa”.

“Enquanto houver quem cante as suas canções, Luís Represas continuará a regressar. Não como lembrança distante, mas como presença viva, nessa forma discreta e luminosa que só a verdadeira arte conhece”.

“Hoje perdi um amigo. Choro, em Cabo Verde, a sua partida. Recordo a noite fantástica, no passado dia 21 de março. Recordo tantos momentos bons ao longo dos anos. Saudades do futuro, Luís… Talvez um dia te encontre…”, recordou.

Oeiras manifesta “profundo pesar”

Em nota de pesar oficial, o Município de Oeiras manifestou “o seu mais profundo pesar pelo falecimento de Luís Represas, uma das vozes mais marcantes da música portuguesa, cuja obra e percurso artístico deixaram uma marca na cultura nacional”.
Na nota é ainda sublinhado que Luís Represas “tinha uma forte ligação ao concelho de Oeiras”, tendo atuado no Auditório Municipal Ruy de Carvalho e participado na iniciativa ‘Nós Leitores’ na Biblioteca Municipal de Oeiras.

“Neste momento de tristeza, o Município de Oeiras endereça à família, aos amigos e a todos os que com ele partilharam o seu percurso de vida e artístico as mais sinceras condolências”, conclui.

Moedas lamenta morte de “admirável e generoso” lisboeta

Em mensagem escrita no X, Carlos Moedas, presidente da Câmara de Lisboa, curvou-se perante o legado do músico lisboeta. “Despedimo-nos de uma das vozes mais inesquecíveis da nossa música e de um dos homens mais generosos e admiráveis da cultura portuguesa. Luís Represas cantou o amor, a paz e a liberdade com uma sensibilidade e elegância ímpares”.

O autarca lembrou o papel do músico na luta pela independência de Timor Leste. “Foi um lutador incansável pela independência de Timor, um embaixador inesgotável da língua portuguesa e um promotor inexcedível da lusofonia não só enquanto músico, mas também como escritor”, mas também “a sua paixão por Lisboa, onde nasceu, que tanto o inspirou e que celebrou através das suas canções e de concertos que fazem parte da história da cidade, faz igualmente parte do legado que nos deixa”.

“Neste momento de profunda tristeza, presto a minha homenagem a Luís Represas e envio uma mensagem de condolências à família, aos amigos, aos companheiros dos Trovante e a todos os que tiveram o privilégio de o conhecer e ouvir. Até sempre.”, sublinhou Carlos Moedas.

A morte do cantor provocou uma onda de choque entre os músicos portugueses. Sérgio Godinho, António Manuel Ribeiro (UHF), Eugénia Melo e Castro, Pedro Abrunhosa, João Pedro Pais, Sónia Tavares (The Gift) e Tony Carreira estão entre os músicos que reagiram à morte de Luís Represas, confessando “o choque” pelo desaparecimento do músico e reconhecendo “a obra imensa” que fica para o país.
Luís Represas deu voz a algumas das mais populares obras do cancioneiro português. Com os seus Trovante ou a solo, encheu salas, arenas e até castelos do país de norte a sul ao longo de 4 décadas. E fez soar a banda sonora da vida de várias gerações de portugueses espalhados pelo mundo. “Perdidamente”, “125 Azul”, “Balada das Sete Saias”, “Timor”, “Saudade” ou “Feiticeira” são alguns dos temas que ficam imortalizados na memória coletiva portuguesa.

O velório do músico está marcado para quinta-feira, na Basílica da Estrela, em Lisboa, sendo público entre as 16h00 e as 22h30. O funeral realiza-se na sexta-feira, depois de uma cerimónia religiosa às 15h00, naquela basílica, e é reservado à família.

Crédito de Foto: Rodrigo Simas Photography / Página Luís Represas

 

 

 

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