De 28 de agosto a 6 de setembro, Paço de Arcos volta a iluminar-se para celebrar as sus tradicionais Festas em Honra do Senhor Jesus dos Navegantes 2026, que este ano celebram 151 anos de história viva. Fomos conhecer as expetativas dos moradores e dos comerciantes sobre a aproximação da data e quais os impactos que esta Festa centenária tem na comunidade.
A Leitaria Marginal é um dos negócios do setor da restauração mais antigos de Paço de Arcos. Fundada em 1947, foi, durante muitos anos, o ponto de encontro de pescadores, habitantes e gente de passagem que circulava pelas poucas ruas da freguesia.
Carlos Freire, atual proprietário do espaço, já está atrás do balcão da Leitaria Marginal há meio século. Começou como empregado, aos 17 anos, acabando por ficar com o negócio, juntamente com o seu pai, comprando-o ao primeiro proprietário, “o saudoso Sr. Olímpio”.
A leitaria está praticamente “colada” ao Jardim Municipal onde se realizam as festividades. O comerciante congratula-se pelo facto de a Festa da vila “movimentar muita gente” e ser motivo de orgulho e de bairrismo para toda a população. Mas revela não representar “grande impacto” no seu negócio, pois fecha portas às 18h00, justamente na altura em que a população acorre em massa ao evento — ao contrário de antigamente, no “tempo da outra senhora”, a Leitaria, que vendia “pouco de tudo”, ao cair da noite transformava-se em “taberna”, permanecendo aberta “até muito tarde” para matar a sede a pescadores e outros clientes assíduos da casa.
“Abro às 7h00 e já não aguento ficar de porta aberta até muito tarde. A minha idade (67 anos) já não me permite ficar aqui à espera de clientes que venham à Festa, porque as pernas já pesam”, justifica.
Não obstante, Carlos Freire é também morador da zona e, nessa qualidade, diz que tem por hábito “vir dar uma volta” para assistir aos concertos e demais programação, mas também para rever amigos e conviver entre caras conhecidas.
Atualmente, a Leitaria Marginal mantém-se como um ponto de encontro dos habitantes da vila, sendo o café mais antigo de Paço de Arcos. É hoje uma pastelaria com 40 metros quadrados, poucas mesas, frequentadas pelos “clientes habituais”. As paredes, essas, estão pejadas de fotografias que recordam um pouco da história da freguesia e da própria casa comercial.
“Rezar” pelas bendições dos homens do mar
Luís Cleto está equipado com roupa desportiva e vem acompanhado pelo seu animal de estimação, um boxer obediente e “bonacheirão”. Veio passear com o seu amigo de quatro patas a uma das poucas praias da Grande Lisboa “pet friendly”, a Praia dos Pescadores, (também conhecida como Praia Velha), situada junto ao Centro Náutico em Paço de Arcos — o local permite a permanência e os banhos de cães e donos durante todo o ano, dispondo de uma área delimitada, bebedouro canino e dispensador de sacos.
Com as Festas à porta, o morador manifesta-se duplamente agradado com a ideia de “reunir a família e os amigos” para virem desfrutar “de boa comida, bom ambiente, de bem-estar geral”, num sentimento de partilha e de “reunião da comunidade” em torno destas “celebrações centenárias”.
A Procissão do Mar, realizada no dia 30 de agosto às 16h00, e a Bênção do Mar e das Embarcações e acolhimento da Imagem Veneranda do Senhor Jesus dos Navegantes pela comunidade de Paço de Arcos, na Praia dos Pescadores, seguido de procissão até Igreja Paroquial da Sagrada Família, constituem alguns dos momentos mais solenes e simbólicos de toda a Festa.
Luís Cleto assume o seu agnosticismo, não tendo ligação particular “com as coisas da religião”, mas assume “respeitar muito” esta invocação divina das preces para proteger os homens do mar. O morador revela ter um filho marinheiro, mestre de máquinas na Marinha Mercante, e que, por essa razão, se junta nas “orações” aos fiéis “para pedir proteção para meu filho e todos outros marinheiros e pescadores”, pois “tudo o que possa ajudar é bem-vindo”, assume, entre uma sonora gargalhada.
Tradição familiar de participar “em Festas maravilhosas”
Matilde Almeida passeia o seu cão pelo Jardim Municipal de Paço de Arcos. Ainda não está devidamente informada do programa das Festas, nem tão-pouco das datas exatas. Mas assume que “é tradição familiar” vir acompanhada dos seus às Festas de Senhor Jesus dos Navegantes.
Nada e criada na freguesia, assinala que as Festas constituem sempre “um momento de grande alegria e de comunhão entre a comunidade”, destacando “os momentos de convívio, dos petiscos e da música”, como agregadores do “bem-estar coletivo”, com “gente vinda de todos os lados” para desfrutar de momentos temperados pelo odor da maresia que “salpica” uma Festa intimamente ligada ao Atlântico.
José Carlos Pereira vem acompanhado da família. Está apressado para “ir almoçar”, mas faz questão de pedir ao jornalista para “escrever que as Festas de Paço de Arcos são maravilhosas”, constituindo um “momento de comunhão entre as pessoas”, revelando que “nunca falta” na celebração coletiva, de “umas Festas que são únicas” na região de Lisboa.
De portas abertas para bem-receber
Localizado no centro histórico de Paço de Arcos, o emblemático restaurante Carula é dos mais antigos e apreciados da vila. Fundado em 1970 por um empresário galego, em 2025, encerrou portas por motivos de saúde do então proprietário, o lendário Senhor Joaquim.
Reabriu em fevereiro, com nova gerência, a cargo de Álvaro Gonçalves, o atual proprietário. O empresário refere que os momentos de celebração coletiva “são sempre bons para os negócios” – lembrando que o “À Prova” trouxe muita gente até Paço de Arcos.
“Por norma, as festas e celebrações trazem muita gente de cá e de fora, que acabam por consumir nos restaurantes e cafés da vila. O nosso restaurante é muito proativo e desloca parte da equipa para a rua para interagir com as pessoas e para promover a maior proximidade possível entre quem tem negócios e os transeuntes”.
O Carula atual foi renovado e oferece um espaço confortável e bem decorado, mas Álvaro Gonçalves diz que o restaurante “é despretensioso” e não quer entrar na categoria dos espaços de “fine dining”.
“O Carulo é um restaurante acessível para todos. Continuamos a servir comida tradicional portuguesa e a honrar as tradições da cozinha nacional”, assume.
O novo proprietário do Carula, que só está à frente da casa desde fevereiro de 2026, não tem grandes certezas quanto ao putativo aumento da clientela durante as Festas, até porque ainda não teve a oportunidade de contactar com a realidade da Festa local enquanto empresário da restauração. Mas assinala que as expetativas “são altas” porque “haverá muita gente a circular pela vila”. E garante que a sua equipa “está de braços abertos” para receber os comensais que vierem até Paço de Arcos.
Recordar a bravura do Patrão Joaquim Lopes
Como já foi referido, as Festas de Paço de Arcos têm uma ligação umbilical com os destinos dos homens que fazem do Atlântico a sua vida.
Todos os anos, as autoridades locais e a população prestam homenagem a um herói local que permanece na memória coletiva das gentes do mar e dos habitantes locais, sendo um dos altos da Festa.
Trata-se do Patrão Salva-Vidas e pescador, Joaquim Lopes, que a Câmara Municipal de Oeiras já homenageou em sessão solene, em 2000, erguendo-lhe um busto.
Joaquim Lopes destacou-se pela bravura, reconhecida em Portugal e no estrangeiro pelas vidas que salvou do mar.
Recorde-se que Joaquim Lopes, algarvio nascido em 1798, ficou conhecido pelo seu primeiro ato heroico aos 25 anos, quando interveio no salvamento de um homem que tentava atravessar com o filho a foz da ribeira de Oeiras.
Residente em Paço de Arcos desde os 21 anos, Patrão Lopes, como era conhecido, trabalhou como remador da falua do Bugio que fazia o aprovisionamento do Forte do Bugio. Em 1833, foi-lhe atribuído o cargo de Patrão da Falua do Bugio. Conhecido pelos salvamentos que realizara, França concedeu-lhe a medalha de “Dedicação e Mérito” por ter salvado parte da tripulação do Esthefanie que naufragou junto ao Bugio.
Com o reconhecimento da sua coragem nos salvamentos que realizara, em 1859, o salva-vidas é colocado em Paço de Arcos sob as ordens do Patrão Lopes. Em 1890, com 92 anos de idade, Joaquim Lopes, Patrão de Salva Vidas falece, mas ainda hoje é recordado como benemérito heroico, reconhecido em Portugal e no estrangeiro pelas vidas que resgatou do Atlântico.
Para além da parte religiosa, as Festas em Honra de Senhor Jesus dos Navegantes têm uma programação eclética e para toda a família. Conta como cabeças de cartaz a fadista Gisela João, o humorista iconoclasta Tio Gel e a banda Virgem Suta.
Para mais informações sobre o cartaz, consultar o site da União das Freguesias de Oeiras e São Julião da Barra, Paço de Arcos e Caxias.









