O bombeiro Hugo Viana está temporariamente afastado da sua “missão de vida”. Apesar de estar fisicamente impedido de estar na linha da frente no combate aos incêndios e demais ocorrências, o bombeiro minhoto tem desenvolvido uma série de iniciativas na retaguarda para angariar fundos para as corporações do país. A Liga dos Bombeiros Portugueses tem partilhado nas suas redes sociais as iniciativas solidárias de Hugo Viana. O comandante dos Bombeiros de Camarate, Luís Martins, enaltece a abnegação do ativista, mas vai mais longe e afiança que toda a população deveria obrigatoriamente de pagar uma quota mensal.
Bombeiro voluntário minhoto, atualmente afastado da atividade por motivos de saúde, Hugo Viana mantém-se ligado à missão de ajudar e continua a dar voz a uma causa que considera essencial: o apoio aos bombeiros portugueses. O ativista da causa dos “soldados da paz” defende que apoiar os bombeiros “é também uma forma de cuidar da comunidade”.
Mesmo temporariamente afastado do serviço operacional, Hugo Viana não deixou para trás o espírito de missão e solidariedade que o liga aos bombeiros. Ao longo dos últimos anos, tem desenvolvido e promovido diversas campanhas de sensibilização e apoio às corporações, procurando mobilizar a comunidade para uma causa que considera de todos – no início do verão levou a cabo uma iniciativa que teve como objetivo recolher garrafas de água para as diversas corporações do país.
A sua mais recente iniciativa volta a colocar no centro das atenções a importância do contributo de cada cidadão para o trabalho desenvolvido diariamente pelos bombeiros, profissionais e voluntários que estão na linha da frente em situações de emergência, incêndios, acidentes e tantas outras ocorrências.
Com uma mensagem simples e direta — “Queres fazer a diferença?” — Hugo Viana desafia a população a transformar a solidariedade em ação, através de um donativo ou da adesão como sócio da corporação da sua localidade.
O objetivo é sensibilizar para a importância de apoiar as instituições que desempenham um papel fundamental na proteção das populações e que necessitam do envolvimento e da solidariedade da comunidade para continuar a cumprir a sua missão.
“Faz um donativo ou torna-te sócio da corporação de Bombeiros da tua localidade” é, assim, o apelo lançado por Hugo Viana, numa campanha que pretende lembrar que cada contributo conta e que, mesmo quando parece pequeno, “pode fazer a diferença”.
Ajudar quem ajuda os outros
Em declarações ao “Olhares de Lisboa”, Hugo Viana diz que mais do que uma campanha de angariação de apoio, a iniciativa pretende ser também uma mensagem de reconhecimento a todos os homens e mulheres que estão na linha frente no auxílio às populações, sendo também “um convite à comunidade para estar mais próxima de quem, diariamente, está disponível para ajudar os outros”.
“A população deve ter em conta o espírito de sacrifício e de empenho dos bombeiros portugueses, que estão ao serviço das pessoas 24 horas, 365 dias por ano”, lembra o “soldado da paz”, lamentando, no entanto, que “as pessoas só de lembrem (dos bombeiros) quando precisam da sua ajuda”.
Com mais esta ação de campanha em prol dos seus “irmãos” de causa comum, Hugo Viana termina o seu depoimento reafirmando que “apoiar os bombeiros é também uma forma de cuidar da nossa comunidade”.
As suas iniciativas de carácter individual têm sido bem acolhidas pelas diversas corporações de bombeiros espalhadas pelo território nacional.
A Liga dos Bombeiros Portugueses também já deu seu aval a esta ação, usando as redes sociais da instituição para divulgar a mais recente campanha de angariação de fundos promovida pelo bombeiro de Viana do Castelo.
Em conversa com o “OL”, o comandante dos Bombeiros de Camarate aprova esta iniciativa de Hugo Viana pelo “mérito e a resiliência de um jovem bombeiro que vive a ‘causa’ de forma tão intensa”.
Apesar de elogiar a iniciativa, Luís Martins revela que os Bombeiros de Camarate “ainda estão a avaliar” se irão aderir à iniciativa — até porque “vários elementos da direção ainda se encontram de férias” –, mas “tudo leva a querer que iremos pôr em prática esta iniciativa”.
O comandante de Camarate justifica as suas reticências por “não gostarmos de andar de mão estendida”, reiterando, porém, que “o projeto é muito engraçado” e que tem o seu apoio enquanto forma direta de contribuição para auxiliar “quem vive num permanente sufoco financeiro”.
Bombeiros “maltratados” por sucessivos governos
Para fazer o retrato da situação atual das várias corporações do país, Luís Martins não poupa nas palavras e aponta o dedo àquilo que ele considera como um sistema de financiamento estatal que enterra a cabeça na areia e condena as corporações de bombeiros voluntários a um eterno subfinanciamento. “Os sucessivos governos têm ignorado as nossas necessidades. Sou socialista, mas afirmo com convicção que o Governo liderado pelo António Costa foi terrível para os bombeiros portugueses, tratando-nos muito mal. Este Executivo tem ido pelo mesmo caminho, tal como todos os governos anteriores”, aponta.
Na visão de Luís Martins, o poder político nacional “só se lembram dos bombeiros quando precisam de nós para apagar os incêndios ou para auxiliar a população, mas podem ficar descansados que, no caso de arderem os terrenos dos governantes, lá estaremos para cumprir a nossa missão”, ironiza.
O comandante de Camarate dá como exemplo os valores pagos pelos bombeiros por um camião operacional de combate a incêndios, que custa um valor a rondar os 500 mil euros ou ambulâncias cujo valor ascende aos 90 mil euros.
“Se não fossem as Câmaras Municipais, como a de Loures, não tínhamos forma de adquirir estes equipamentos. Era praticamente impossível. Felizmente, em Loures temos um presidente, como o Ricardo Leão, que tem sensibilidade social para apoiar os bombeiros do seu concelho”.
Voltando à iniciativa de Hugo Viana, o comandante de Camarate enaltece a tentativa de angariação de sócios levada a cabo pelo bombeiro minhoto. Mas vai mais longe e reitera uma posição que tem defendido ao longo dos anos em vários meios de comunicação nacionais: “Todos os cidadãos deveriam ser obrigatoriamente sócios dos bombeiros”, pois os dinheiros das seguradoras “não chegam a nós diretamente”, inviabilizando a tão ansiada estabilidade financeira das instituições.
Segundo o líder dos bombeiros de Camarate, a sociedade portuguesa ainda não interiorizou as suas “obrigações” de cidadania e de solidariedade para com aqueles que deixam tudo para trás para “salvar vidas e os bens da população”.
“As pessoas não se importam de pagar as cotas dos seus clubes, mas não estão dispostos a colaborar com 1 euro para os bombeiros da sua área de residência”. Luís Martins sustenta que esse euro “faria toda a diferença na vida das instituições”, que serviria para a compra de equipamento ou para reforçar os quadros de operacionais das corporações.
Falta de futuro retrai voluntariado
O responsável entende que o atual modelo de retribuição salarial dos bombeiros – que têm vencimento ao nível do salário mínimo — “fica muito aquém” dos custos de vida atuais, pondo em causa a formação de “um quadro profissional de bombeiros” para dar resposta às múltiplas solicitações diárias.
“Hoje, já ninguém se compadece com a necessidade de largar o trabalho para vir para os bombeiros, como acontecia há 20 anos. Nessa altura, tocava a sirene e a malta vinha toda a correr. Agora, as empresas torcem o nariz a contratar alguém que é obrigado, por lei, a largar o trabalho para vir em auxílio de quem necessita, porque sabem que esse trabalhador vai ter de faltar muitas vezes para cumprir a sua missão humanitária”, sustenta.
Ao abrigo desta instabilidade profissional, os voluntários são cada vez menos, pelo que “ninguém troca um emprego seguro por um vencimento equiparado ao ordenado mínimo nos bombeiros”, reitera.
Pese embora a crise no voluntariado, Luís Martins assevera que as corporações de bombeiros portuguesas devem “contar sempre com voluntários”, mas deveriam seguir “o modelo francês”, que põe as equipas de bombeiros profissionais na linha da frente das ocorrências e conta com o complemento dos voluntários na retaguarda, “para garantir que, por exemplo, os incêndios que ocorrem em simultâneo não deixem de ser combatidos”, defende, destacando que a formação de profissionais e de voluntários tem de estar ao mesmo nível para que as ações sejam perfeitamente coordenadas e que nenhuma ocorrência careça de operacionais no terreno.


