A Delta Cafés e a Nãm inauguraram, no dia 14 de setembro, em Odivelas, uma nova fábrica que triplica a capacidade de produção de cogumelos feitos a partir de borras de café. A Nãm Fungi Factory ambiciona tornar-se a maior produção urbana de cogumelos da Europa. A ministra do Ambiente aproveitou para solicitar a consciencialização dos portugueses na promoção de hábitos de separação de resíduos e a redução dos níveis de consumo.
A Delta Cafés e a Nãm inauguram hoje, em Odivelas, uma fábrica que marca uma nova etapa de crescimento do projeto pioneiro de economia circular que transforma borras de café Delta em cogumelos.
Segundo Rui Miguel Nabeiro, CEO do Grupo Nabeiro – Delta Cafés, a nova unidade, de maior dimensão, permite aumentar significativamente a capacidade de produção de cogumelos, dando continuidade ao projeto que nasceu de uma ideia simples: transformar um subproduto do café num recurso com valor — e que hoje se afirma como um exemplo de inovação e de economia circular em Portugal.
Após elogiar a parceria entre a Delta e a Nãm Fungi Factory, que resultou de uma start-up desenvolvida pelo fundador da empresa e que contou com o apoio da Delta, Rui Miguel Nabeiro defende, por outro lado, que “mais do que aumentar a capacidade de produção, a nova Nãm Fungi Factory pretende demonstrar que é possível produzir alimentos em escala dentro das cidades, através de um modelo circular e com menor impacto ambiental”.
Conforme explicou Natan Jacquemin, fundador da Nãm, o projeto começou há sete anos numa cave em Lisboa, mas já ambiciona tornar-se uma das maiores produções urbanas de cogumelos da Europa, demonstrando que aquilo que é visto como desperdício pode ser o ponto de partida para uma nova forma de produzir alimentos.
Com uma área de 2.000 m², a Nãm Fungi Factory tem uma capacidade de produção projetada de cerca de 150 toneladas de cogumelos frescos por ano, face às cerca de 48 toneladas produzidas atualmente.
Este crescimento permitirá triplicar a capacidade produtiva da Nãm e reaproveitar cerca de 150 toneladas de borras de café por ano, o equivalente a aproximadamente 15 milhões de expressos de café Delta. Está ainda prevista a criação de 20 postos de trabalho diretos.
Para Natan Jacquemin, “a Nãm nasceu de um sonho bastante simples: provar que aquilo a que chamamos desperdício pode ser o início de algo novo. Começámos numa cave em Lisboa, a tentar perceber como transformar borras de café em cogumelos. Sete anos depois, estamos a inaugurar uma fábrica com capacidade para nos tornar numa das maiores produções urbanas de cogumelos da Europa. Mas o nosso sonho nunca foi simplesmente produzir mais cogumelos. Queremos ajudar a provar que é possível produzir alimentos de outra forma. Dentro das cidades, aproveitando recursos que já existem, utilizando menos água e energia e procurando ter o menor impacto carbónico possível. Esta fábrica dá-nos escala para continuar a perseguir essa visão. Se conseguirmos produzir mais cogumelos e, ao mesmo tempo, reduzir o impacto de cada quilo que produzimos, então estamos no caminho certo. É um novo capítulo para a Nãm, mas a ideia continua exatamente a mesma: fazer crescer economia e ecologia lado a lado, um cogumelo de cada vez”.
Esta unidade foi pensada para produzir mais e melhor e com menos recursos. A Nãm Fungi Factory incorpora um conjunto de soluções que reforçam a eficiência dos processos: funciona com 100% de energia solar para autoconsumo e permite a reutilização e recirculação de cerca de 80% da água utilizada no processo produtivo. A Nãm é ainda uma empresa certificada B Corp, reconhecimento que reforça o seu compromisso com elevados padrões de desempenho social e ambiental, transparência e responsabilidade.
Economia circular
A ambição da Nãm, segundo Nathan Jacquemin, é continuar a reduzir a pegada associada à produção alimentar e trabalhar para que os seus cogumelos estejam entre os alimentos produzidos com menor impacto ambiental, através de um sistema que valoriza recursos locais, reduz desperdício e devolve ao solo o substrato resultante do cultivo.
Com a nova fábrica, a Nãm reforça a visão que esteve na origem do projeto: criar um modelo de produção alimentar urbano, circular e replicável, capaz de aproximar a produção das cidades e demonstrar que economia e ecologia podem crescer lado a lado.
Rui Miguel Nabeiro lembrou que a Nãm integra a Delta Ventures, a aceleradora e incubadora de start-up do Grupo Nabeiro, criada em 2020, tendo a evolução do projeto para uma unidade de maior dimensão demonstrado o potencial da aposta do Grupo no empreendedorismo e na inovação, apoiando soluções capazes de transformar desafios ambientais em oportunidades de negócio e de criação de valor.
O CEO do Grupo Nabeiro explicou que a Nãm é um exemplo concreto de como os princípios da economia circular podem estar integrados no negócio e criar valor. “O que começou com a transformação das nossas borras de café numa nova matéria-prima é hoje um projeto de referência em Portugal e com ambição europeia”.
“Esta nova fábrica representa um passo importante porque permite dar escala a uma solução que já demonstrou o seu impacto, tornando-a simultaneamente mais eficiente. Acreditamos que crescer implica uma visão de longo prazo e a capacidade de transformar desafios em oportunidades. Este projeto demonstra ainda que é possível conciliar crescimento económico, inovação e impacto positivo na sociedade e no ambiente”.
Correr as “capelinhas” de Twingo
Para o fundador da companhia, cidadão belga que estudou em Lisboa e que fez questão de permanecer em Portugal para desenvolver as suas ideias, o projeto tem também como propósito maior de demonstrar que é possível produzir alimentos dentro das cidades, com um modelo circular e menor impacto ambiental, isto é, promover a “verdadeira economia circular”, “amiga do ambiente”, reaproveitando desperdícios alimentares, transformando-os em novos alimentos.
O fundador da companhia lembrou que “tudo começou como um sonho”, em que o empreendedor andava a recolher borras de café, num Renault Twingo, pelos estabelecimentos de Lisboa, mas que hoje “se transformou num negócio”, que criou cerca de 20 postos de trabalho e que comercializa cogumelos para 250 clientes de restaurantes da Grande Lisboa, mas também está presente nas principais cadeias de retalho do país.
Os cogumelos não nascem por magia. Natan Jacquemin explica o processo que transforma as borras de café em cogumelos: “A Delta recolhe as borras de café, aproveitando a logística que existe. Trazemos as borras de café para a fábrica, misturamos com palha e também com sementes de cogumelos. Depois os cogumelos nascem. O próprio desperdício da produção dos cogumelos é um excelente fertilizante. Mas é preciso paciência”, contou.
Portugal já pagou 600 milhões em multas
A inauguração contou com a presença da ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, e do presidente da Câmara Municipal de Odivelas, Hugo Martins.
A governante mostrou-se “impressionada” com o projeto, admitindo não ter conhecimento da sua existência. Mas enaltece o trabalho do empresário belga, uma vez que está em linha “com uma das minhas grandes batalhas”: promover a produção local, a redução do desperdício, a economia circular.
Para a ministra, o país está ainda muito distante das metas propostas pela União Europeia no sentido de reduzir a pegada ecológica, tratando 64% dos resíduos, quando deveria reduzir para os 10%. “Em países como a Bélgica, e até a Itália, está a fazer-se um esforço para reduzir e têm tido resultados. Em Portugal, em vez de reduzir, estamos cada vez mais a aumentar a produção de resíduos. Na Bélgica, as coimas para quem não cumpre o seu papel na separação e reutilização dos resíduos podem ir até aos 1000 euros. Os vizinhos atuam como vigilantes e denunciam aqueles que não cumprem. Em Portugal, não queremos passar a essa fase, até porque sabemos que as pessoas já têm outros problemas com que se preocupar”, mas Maria Graça Carvalho reforçou que importa repensar o nosso papel enquanto sociedade, a começar pelas escolas, uma vez que o país está cada vez mais consumista, sem se preocupar com as consequências que o consumo desregrado provoca no meio ambiente.
A responsável alertou ainda para as “multas que o Estado tem pago” à União Europeia, na ordem dos 600 milhões de euros, pelo incumprimento da redução dos plásticos, anotando que vários países “fizeram reformas que deram resultado”, insistindo na necessidade de os cidadãos “ter mais consciência ambiental”, interiorizando a urgência de separar o lixo e reduzir o consumo.
Mas nem tudo é negativo em Portugal. Maria Graça Carvalho defendeu que o programa “Volta” já reuniu 305 milhões de embalagens de plástico e metal, ajudando a “atingir as metas propostas”, mas afiança que é objetivo do Governo estender esta circularidade da economia ao setor dos têxteis e de outros ramos da indústria.
Odivelas é terreno fértil para o investimento
Em sinal de reconhecimento do papel inovador do empresário belga, o Município de Odivelas atribuiu recentemente a Medalha de Mérito Municipal ao referido projeto de produção de cogumelos.
O presidente da Câmara Municipal de Odivelas, Hugo Martins, ressalvou que o território se identifica “plenamente” com este tipo de inovação, que promove emprego e faz parte de um setor empresarial “com responsabilidade social e ambiental”.
“Odivelas é bom para trabalhar e para investir. Temos uma taxa de desemprego perfeitamente residual e ambicionamos ter um tecido empresarial forte, com responsabilidade social e ambiental. A Aginvest, a nossa agência de criação de emprego, procura investimento para os nossos empresários desenvolverem os seus negócios e continua a trabalhar nesse sentido”, asseverou o autarca, acrescentando que Odivelas “é o concelho mais novo do país”, mas também “o mais jovem” e onde a taxa de natalidade “é a mais alta do país há seis consecutivos” – Hugo Martins brincou admitindo que as taxas de natalidade se devem “à marmelada branca de Odivelas”.
No entender do autarca, Odivelas é comprovadamente um “território de futuro” e onde “vale a pena investir”.
Os cogumelos Nãm podem ser adquiridos na fábrica Nãm Urban Farm diretamente ou em https://nammushroom.com/. São ainda comercializados no retalho e integram a ementa de vários restaurantes e cafetarias da Região de Lisboa.
Podem ser agendadas visitas à Nãm Fungi Factory através do email visits@nammushroom.com.


