Apesar da discordância dos municípios, e do próprio PSD, desde que o projeto foi anunciado pelo Governo de António Costa, em 2017, a opção pelo funcionamento exclusivamente em sistema circular será mesmo a adotada na nova linha do metropolitano de Lisboa, que começará a operar até ao final do primeiro trimestre de 2027. Para esta quarta-feira, pelas 14h00, está marcada uma concentração contra a linha circular do Metropolitano de Lisboa. A Câmara de Odivelas, uma das mais afetadas, considera inaceitável esta decisão.
A Câmara Municipal de Odivelas, Hugo Martins, quer pressionar o Governo e o presidente do Conselho de Administração do Metropolitano de Lisboa a alterar o projeto da nova linha circular para uma “linha em laço”. O presidente da Câmara Municipal de Odivelas, em comunicado, lamenta esta decisão “com profunda preocupação e considero-a inaceitável”.
Hugo Martins considera: “Como presidente da Câmara Municipal de Odivelas, não me conformo com esta decisão e continuarei a desenvolver todas as diligências ao alcance do Município para defender uma solução que melhor sirva os odivelenses e todos os utilizadores da Linha Amarela”.
Esta posição de Hugo Martins é sustentada em quatro pontos. Em primeiro lugar, porque, na sequência do trabalho desenvolvido ao longo dos últimos anos, os anteriores governos, através dos sucessivos ministros da tutela e do próprio Primeiro-Ministro, em declarações públicas, assumiram o compromisso de assegurar a partilha da Linha Amarela, pelo menos nos períodos de maior procura. Os estudos agora conhecidos demonstram, aliás, que essa solução é tecnicamente viável.
Em segundo lugar, “porque é incompreensível que não sejam honrados os compromissos anteriormente assumidos, quando o próprio PSD sempre defendeu esta solução, quer na Câmara Municipal de Odivelas, quer na Câmara Municipal de Lisboa, na Junta de Freguesia do Lumiar e na Assembleia da República. As diversas declarações públicas, projetos de lei, moções e recomendações aprovadas ao longo dos últimos anos testemunham essa posição”.
Em terceiro lugar, ainda segundo o comunicado emitido pelo autarca de Odivelas, “porque invocar um investimento adicional de cerca de 10 milhões de euros como fundamento para esta decisão não é coerente com os compromissos assumidos. Face ao investimento global previsto para a expansão do Metro de Lisboa, este montante representa uma parcela irrisória e não pode justificar uma opção que prejudicará diariamente a mobilidade de milhares de cidadãos”.
Por último, o autarca lamenta “profundamente que esta decisão tenha sido conhecida através da comunicação social, quando, desde novembro passado, aguardo uma resposta, por parte Ministro das Infraestruturas ao ofício que lhe dirigi, precisamente com o intuito de saber se o Governo iria cumprir os compromissos assumidos nesta matéria”.
A solução “em laço”, recorda, é defendida por diversos especialistas e a sua viabilidade técnica encontra-se demonstrada pelos estudos realizados. Estamos, por isso, perante uma decisão de natureza política, cujas consequências serão sentidas diariamente por milhares de utentes da zona norte da Área Metropolitana de Lisboa e mesmo da cidade de Lisboa.
Para Hugo Martins, o que está em causa é uma questão de mobilidade, de qualidade de vida e de justiça para milhares de cidadãos. “Trata-se, igualmente, de respeito! Respeito pelos compromissos públicos assumidos e a necessidade de garantir que decisões desta relevância sejam tomadas com responsabilidade, coerência e na defesa do interesse público”, defende.
PCP convoca manifestação
Entretanto, o PCP anunciou que vai entregar esta quarta-feira uma carta ao presidente da câmara de Lisboa, Carlos Moedas. Também para esta quarta-feira, pelas 14h00, está marcada uma concentração contra a linha circular do Metropolitano de Lisboa e entregue uma petição pública que, até ao momento, recolheu mais de mil de assinaturas.
“A conclusão da obra da linha circular introduzirá um novo interface no Campo Grande, obrigando milhares de utentes provenientes do Lumiar, Telheiras, Quinta das Conchas, Santa Clara/Ameixoeira e Odivelas a um transbordo adicional para aceder ao centro da cidade. Esta alteração representa um agravamento das condições de mobilidade de quem diariamente utiliza o Metro para trabalhar, estudar ou aceder a serviços”, reclama o PCP, em comunicado.
O que o partido quer, explica o vereador comunista da Câmara de Lisboa, João Ferreira, é uma “linha em laço que comece em Odivelas, na atual linha amarela, vá às zonas centrais da cidade, faça o percurso da linha amarela e da verde e termine na estação de Telheiras”.
“Tem uma enorme vantagem face à linha circular, porque não quebra a ligação direta que hoje existe, e que está a ser posta em causa”, argumenta.
Ainda assim, o João Ferreira assume que o partido já não vai “a tempo de travar investimentos desnecessários”. “Designadamente nos viadutos do Campo Grande, que servem para fechar a linha circular, mas ainda é possível que a linha não seja fechada, portanto que a linha não funcione em círculo e que funcione, em vez disso, em laço”, afirma.
O vereador comunista lembra que o projeto da linha circular foi desaconselhado por um conjunto “alargado de técnicos”: “A nova linha resultou sobretudo de uma obstinação política mais do que de recomendações técnicas.”
As obras para a linha circular, que vão ligar o Cais do Sodré ao Rato, criando estações na Estrela e em Santos, custaram 380 milhões de euros, mais 80% face à previsão inicial. “Esses investimentos teriam sido muito mais úteis a levar o metro às zonas da cidade onde ele hoje ainda não vai”, conclui João Ferreira.
Projeto da Linha Circular
Com o projeto da linha circular, a Linha Verde iria substituir a maior parte daquela que é hoje a Linha Amarela, desde a estação do Campo Grande ao Rato, que se ligaria ao Cais do Sodré através da criação de duas novas estações, Estrela e Santos. A Linha Amarela funcionaria apenas entre Telheiras e Odivelas, perdendo o contacto com as linhas Azul e Vermelha, e com o Campo Grande a ser o único ponto de transbordo.
Vários partidos, autarcas e associações contestaram o modelo circular e propuseram em alternativa a operação em “laço” para evitar o transbordo obrigatório para quem vinha de Odivelas em direção ao centro.
A opção pelo “laço” chegou a ser estudada e debatida pelo Governo, mas foi formalmente excluída e descartada, mantendo-se a aposta na operação em circuito fechado da linha circular.

