Morreu Jorge Palma. Genial, rebelde e desalinhado

Vítima de paragem cardiorrespiratória, morreu aos 76 anos o cantautor Jorge Palma. O compositor lisboeta foi um dos mais influentes da música portuguesa contemporânea. Rebelde, boémio, ativista, desalinhado das convenções sociais, a sua trajetória artística cruza uma sólida formação clássica com a atitude “punk” do rock e a sensibilidade social da música de intervenção.

Menino-prodígio, Jorge Palma começou a estudar piano no Conservatório Nacional de Lisboa, aos 6 anos, demonstrando um talento precoce que o levou a realizar recitais aos oito anos. Contudo, na adolescência, foi “desencaminhado” para a rebeldia desencadeada pelo rock e a música pop, fascinando-se por artistas como Bob Dylan, The Beatles e Leonard Cohen. Influenciado por esse movimento de contracultura, na década de 1960, juntou-se aos Sindikat, grupo de roque psicadélico.

Para evitar a incorporação militar durante a Guerra Colonial, Jorge Palma deixou Portugal nos anos 70 e viveu como refugiado político na Dinamarca e em França. Durante esse período no exílio, sustentou-se a tocar piano em hotéis e a cantar nas ruas de várias cidades europeias, em especial no Metro de Paris, de que o artista revelou recentemente “sentir saudades”. Com o exílio e a subsistência dependente da generosidade alheia, o artista admitiu que essa experiência de liberdade e sobrevivência moldou profundamente a sua identidade artística e lírica.

Com a Revolução dos Cravos em 1974, regressou a Portugal e lançou o seu álbum de estreia a solo “Com uma viagem na palma da mão” (1975). Seguiram-se discos marcantes como “Só” (1991), gravado apenas ao piano e voz, considerado uma obra-prima da música portuguesa, e álbuns de grande sucesso comercial e crítico como “Lado Bom” (1992) e “Voo Noturno” (2007). Entrou também em projetos coletivos de grande relevo, como os Rio Grande (ao lado de Rui Veloso, Tim, João Gil e Vitorino) e os Cabeças no Ar. Líder e fundador do Palma’s Gang, projeto musical português, formado em 1992, composto por Jorge Palma e elementos dos Rádio Macau e Xutos e Pontapés, o músico lisboeta deu azo à sua veia mais “roqueira”, apresentando-se ao vivo no bar-concerto Johnny Guitar, com vários concertos incandescentes e inesquecíveis para quem teve a sorte de estar presente.

Autor de clássicos imortais da música em português — como “Estrela do Mar”, “Canção de Lisboa”, “Frágil”, “Deixa-me Rir”, “A Gente Vai Por Aí”, “Encosta-te a Mim” e “Dá-me Lume” —, Palma combina poética urbana, introspeção e arranjos harmónicos sofisticados. Ao longo da sua carreira de mais de cinco décadas, editou 14 álbuns em nome próprio, e reuniu múltiplos galardões e distinções de prestígio, sendo amplamente reconhecido como uma figura maior da cultura nacional, mas também como um artista livre e profundamente comprometido com a construção do edifício do bem comum e de uma sociedade mais justa.

Em abril de 2026, o criador comparecia pela última vez em público. Ao receber o Prémio Carreira nos Prémios Play, da RTP, o discurso do músico soou a despedida.

Na derradeira consagração pública de Palma, vários amigos juntaram a sua voz para prestar a última homenagem. Com membros da sua banda ao vivo, um elenco de vozes que incluiu Sérgio Godinho, Tim, Marisa Liz, Inês Marques Lucas, Miguel Luz e os dois filhos de Jorge, Vicente e Francisco Palma, ouviram-se algumas das suas contribuições mais duradouras para o cancioneiro nacional, que interpretadas ao vivo: “Canção de Lisboa”, “Dá-me Lume”, “Portugal, Portugal”, “Frágil” e “A Gente Vai Continuar”.

Da plateia, Palma aplaudia e juntava-se ao coro das suas próprias canções, visivelmente emocionado e de cravo vermelho ao peito.

Mais significativo ainda foi o momento em que o próprio Palma subiu a palco para receber o Prémio Carreira, não sem antes agradecer e abraçar todos os músicos que o homenagearam. As suas palavras, que compõem a última declaração pública substancial que deixa ao País, são hoje o adeus de um dos mais talentosos compositores da sua geração.

“Um prémio carreira não é para todos os dias, de facto”, começou por dizer, com o seu habitual sentido de humor, antes de se lançar numa onda e agradecimentos, incluindo a todos os que o haviam “ajudado, ensinado, tratado e curado”. O agradecimento “aos profissionais do SNS, que fazem tudo com os poucos meios que têm”, soa agora particularmente pungente.

Deixou uma palavra às “diferentes gerações que trabalham em simultâneo na música portuguesa”, postulando que “era preciso que os políticos e governantes tivessem visão suficiente para pegar neste potencial, nesta energia e neste talento todo” – quanto à cultura em Portugal, disse estar “à espera que se faça de facto uma reforma eficaz”.

O músico lisboeta concluiu o discurso com um sonoro: “Viva o 25 de Abril!”.

Figuras da política e do Estado rendem homenagem

O Presidente da República, António José Seguro, lamentou esta terça-feira a morte do cantor português Jorge Palma, que morreu na noite de segunda-feira aos 76 anos, vítima de uma paragem cardiorrespiratória.

No site oficial da Presidência da República pode ler-se a mensagem de Seguro, que reagiu com tristeza e consternação à morte de uma das vozes que marcaram a música portuguesa com temas como “A Gente Vai Continuar”, “Encosta-te a mim” ou “Na terra dos sonhos”, também recordados pelo chefe de estado.

“Portugal despede-se de um dos seus ícones e de um dos grandes poetas da nossa música e da nossa sensibilidade. As suas canções hão de ficar como uma recordação intensa e profunda da nossa melancolia; elas marcaram a vida portuguesa durante décadas e, por muito tempo, hão de iluminar a memória de várias gerações.”, lê-se no comunicado oficial.

Seguro deixou ainda condolências à família, amigos, colaboradores e aos artistas que “estiveram ligados à sua música e à sua carreira”.

Luís Montenegro também enalteceu o contributo do músico para a cultura portuguesa, com a sua “voz única e músicas intemporais”.

“Jorge Palma parte, mas a sua música fica. Fica nas palavras, nas melodias e na memória de várias gerações”, afirmou o primeiro-ministro numa mensagem na rede social X, logo após ser conhecida a morte do músico.

“Fica, sobretudo, na cultura portuguesa, que ajudou a transformar com a sua voz única e músicas intemporais”, adianta Montenegro, deixando condolências à família e amigos de Jorge Palma, em nome pessoal e do Governo.

As reações chegaram também por parte da ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, que agradeceu o legado do músico considerando-o um “cantor extraordinário” e uma das vozes mais icônicas da música portuguesa das últimas décadas, numa publicação na rede social X.

Carneiro homenageia “homem livre”

Dos partidos políticos também começam a surgir reações com o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, a recordar um dos “maiores músicos e compositores” portugueses e a sua “obra extraordinária”.

Na sua página oficial na rede social X, o líder do Partido Socialista afirmou que Jorge Palma era um “homem livre, de uma criatividade singular e de uma autenticidade rara”, acrescentando que o artista “fez da música também uma forma de celebrar a liberdade”.

José Luís Carneiro finalizou a sua mensagem com um agradecimento ao cantor: “Obrigado por tanto, Jorge Palma. A gente vai continuar”.

PCP recorda figura “insubmissa” 

Era conhecida a sua ligação ao PCP, por quem deu Palma a cara em várias campanhas e eleições. Em comunicado, o partido lamenta morte de Jorge Palma e destaca percurso na música portuguesa.

Partido recorda o músico como uma referência de liberdade e destaca a sua intervenção artística e política ao longo de mais de cinco décadas.

O PCP lamentou a morte do músico Jorge Palma, aos 76 anos, destacando o seu percurso na música portuguesa e a ligação das suas canções a temas como a liberdade e a democracia.

Num comunicado divulgado após a morte do cantor e compositor, o partido considera Jorge Palma uma “figura maior da música e da cultura portuguesas” e recorda-o como uma referência de “insubmissão e liberdade” para várias gerações.

O partido recorda também a participação de Jorge Palma em várias edições da Festa do Avante, a solo ou integrado noutros projetos.

O PCP destaca o discurso do músico nos Prémio Play, em que defendeu o Serviço Nacional de Saúde e os seus trabalhadores e apelou à defesa dos valores de liberdade, democracia e justiça.

O PCP termina o comunicado com uma referência a “A Gente Vai Continuar”, uma das canções de Jorge Palma, afirmando que pretende dar continuidade às ideias que o músico expressou na sua obra.

Lisboa lamenta a morte de Jorge Palma

A Câmara de Lisboa, por seu turno, enviou “as mais sentidas condolências” à família e amigos. Para Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, a cidade “chora hoje um dos seus filhos mais brilhantes”.

Em 2002, Palma venceu o Prémio José Afonso, e dez anos depois venceu a primeira edição do Prémio Pedro Osório, da Sociedade Portuguesa de Autores.

Em 2020, recebeu a medalha de mérito cultural da Câmara Municipal de Lisboa – no final do concerto “70 voltas ao Sol”, no Castelo de São Jorge, que assinalou os 70 anos do cantor – e foi condecorado como comendador da Ordem do Infante D. Henrique, pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Músicos prestam homenagem ao “amigo”

No mundo da música também surgiram muitas mensagens. Tim, músico da banda Xutos & Pontapés, escreveu numa publicação do Instagram: “A nossa derradeira vénia junta. Obrigado Jorge.”

Paulo Gonzo, amigo do cantor e com quem partilhou vários palcos, referiu-se a Jorge Palma como um irmão, numa publicação no Instagram com uma foto de ambos.

“Hoje não perdi apenas um amigo. Perdi um irmão. Foram muitos anos de vida, de música, de palcos, de conversas, de cumplicidade. Daquelas amizades que já não precisam de explicação, porque fazem parte de nós. É difícil encontrar palavras para uma despedida que nunca estamos preparados para fazer…Vais fazer-me muita falta, meu irmão”, escreveu o antigo líder e frontman dos Go Graal Blues Band.

Também Pedro Abrunhosa reviveu memórias de ambos nos anos 80. Numa longa mensagem no Instagram o artista escreveu: “Há uma luz na Música de Jorge Palma que é espinha dorsal deste país, que o há-de ajudar a construir-se porque não há Portugal sem o espelho translúcido, honesto, dos seus autores.”

David Fonseca, por seu turno, diz que a sua “admiração profunda” por Jorge Palma “tem várias frentes: prodigioso compositor, letrista e intérprete, um pianista fora de série, um poeta, um observador astuto do nosso mundo, todas as qualidades que o colocam há décadas como um dos maiores músicos de sempre do nosso país”.

O fadista Camané, na sua página oficial, recorda o “grande compositor, grande letrista, homem de cultura e da cultura, um amigo”.

E Mafalda Veiga, que partilhou canções como “Imortais” e “Tatuagens” com Palma, publica uma fotografia em que o músico escreve na sua mão, garantindo: “Querido Jorge Palma, esta tatuagem será sempre eterna”.

O guitarrista de jazz Mário Delgado, que se cruzou com o músico desde o início da carreira, lembra como “nunca deixou de ser aquele Palma ou aquele Jorge que sempre foi: estávamos lado a lado, depois de um teste de som para um concerto, quando uma jornalista, no meio desse momento de consolidação da sua carreira, lhe perguntou: ‘De que é que tem saudades?’ E o Jorge respondeu, sem hesitar: ‘Dos tempos em que tocava na rua, em França’”.

A última publicação feita nas páginas do músico lisboeta foi precisamente a celebrar o aniversário de um grande amigo, Sérgio Godinho, que completou 81 anos no dia 31 de agosto. Ao mostrar uma fotografia em que ambos aparecem de costas, escreveu: “Parabéns, meu amigo SG.”

E usou igualmente as redes sociais em julho quando se despediu do colega e amigo Luís Represas, que morreu aos 69 anos. “Querido amigo Luís, é desolador saber que partiste, caramba”, escreveu na altura.

A notícia da morte do músico foi anunciada pela família numa publicação feita nas páginas das redes sociais do artista. A mulher de Jorge Palma, Rita Tomé, os filhos, Vicente e Francisco Palma, lembram “este momento de dor incalculável”, e pedem que o criador lisboeta seja lembrado “pelas suas canções e palavras” agradecendo “toda a amizade demonstrada ao longo dos anos”.

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