Movimento de cidadãos reclama “Jardim da Estrela para todos”

Movimento de cidadania pela “defesa dos quiosques e cafés dos jardins públicos” de Lisboa pede explicações sobre encerramento do “café amarelo” do Jardim da Estrela. O grupo já reunião mais de 1200 assinaturas numa petição pública onde se questiona, grosso modo, o modelo de cidade “elitista” que está a nascer em Lisboa. 

Em entrevista ao “Olhares de Lisboa”, Claudio Set sustenta que os moradores “ficaram muito tristes” com o encerramento do “quiosque amarelo”, e a sua substituição por um espaço “gourmet”, pois “acabou com todas as dinâmicas sociais” que antes existiam no Jardim.

O arquiteto denuncia que a mudança de negócio constitui “uma surpresa para todos”, até porque “não foi anunciada” nem “debatida” entre a população e o poder autárquico.

“Esse café existia há três décadas. Não lhe faltavam clientes e era o ponto de encontro e de convívio dos moradores. Agora, com a nova realidade, os preços proibitivos afastam todas as pessoas que antes eram clientes do espaço”.

A petição, que foi lançada inicialmente por um grupo de pais, pretende dar conta da “tristeza” de toda a comunidade face ao desaparecimento de um espaço “que era um ponto de relax e de convívio entre a comunidade, sem tempo marcado, como acontece agora”.

O arquiteto argentino, que vive em Portugal há 30 anos, declara-se um apaixonado por Lisboa, onde nasceram os seus filhos, mas teme uma inversão das políticas públicas para a cidade. Com trabalho na construção de espaços públicos, mostra-se agastado pelos caminhos do urbanismo na cidade da Lisboa, questionando-se se a mudança no Jardim da Estrela “vai ser uma exceção ou vai ser regra” por toda a cidade – no resto dos jardins e dos quiosques, que sempre foram lugares de convívio da população –, mostrando-se “contra este tipo de cidade”.

Pelo andar da carruagem, sustenta o ativista, as esplanadas e quiosques da cidade irão deixar de fazer parte do “espaço público” para passarem a servir apenas os turistas e os estrangeiros residentes “com muito poder de compra”.

Claudio Set acrescenta que a petição conta “com imensas assinaturas” de jovens estrangeiros que residem em Lisboa. “Os próprios nómadas digitais também já não conseguem frequentar estes quiosques e esplanadas, porque praticam preços verdadeiramente exorbitantes e inacessíveis para o cidadão comum, até para os profissionais liberais que trabalham e vivem na cidade”. O ativista diz, no entanto, que nada o move contra esses negócios, que “têm de praticar esses preços para pagarem as rendas altíssimas” à Câmara de Lisboa.

O ativista alerta que este (des)caminho levado a cabo nos espaços públicos da capital está a transformá-la “num lugar elitista”, onde quase ninguém consegue ter uma vida comunitária. “O meu filho, que também é arquiteto, não consegue sentar-se numa dessas esplanadas (…) Um reformado ou um trabalhador têm de abdicar do prazer de ficar à conversa numa esplanada. Lisboa é hoje como as grandes capitais europeias. Mas os nossos ordenados não correspondem ao nível de vida que é preciso ter para podermos viver verdadeiramente a cidade”, aponta.

Segundo Claudio Set, esta subida vertiginosa do custo de vida “está a obrigar muitos jovens a emigrar, como o meu próprio filho, que migrou para a Suíça, onde as despesas do dia a dia não são assim tão mais altas do que em Lisboa”, mas os vencimentos quintuplicam os de Portugal.

Promover o debate na sociedade civil

O ativista defende que este grupo de cidadania está a ponderar organizar debates e discussões públicas para se “apresentarem soluções e medidas mais equilibradas”, mas revela que, por exemplo, veria com bons olhos esse tipo de negócios venderem os produtos mais consumidos pelo portugueses, como os pasteis de nata e os cafés, “a preços normais” para o bolso dos autóctones e os brunchs e cocktails, “de que os turistas tanto gostam”, serem comercializados por um valor que os “turistas estrangeiros já estão habituados a pagar nos seus países de origem”.

O entrevistado explica que o movimento de cidadania, criado por um grupo de pais do Liceu Pedro Nunes, nasceu “forma informal” em protesto contra o encerramento de “forma violenta” do “quiosque amarelo”. E anota que já deu conta das suas posições à Junta de Freguesia da Estrela, à Câmara Municipal e ao Património, instituto público que tutela os equipamentos culturais, como o Jardim da Estrela. Mas, até data, ainda não obtiveram qualquer resposta.

O arquiteto salienta que esta petição pública é também “um pretexto” para se debater o modelo de cidade que está hoje em curso.

Em suma, o grupo fundamenta a sua posição, argumentando que o Jardim faz parte do património nacional. Inaugurado em 1852, o Jardim da Estrela é um dos mais importantes jardins históricos de Portugal. Ao longo de mais de 170 anos, consolidou-se como espaço de contemplação, passeio, encontro e convivência, “onde o consumo não fazia parte da sua razão de ser”.

Segundo o texto que acompanha a petição, a originalidade do equipamento “resulta do seu excecional equilíbrio, reunindo património ambiental, cultural, arquitetónico e social. Os equipamentos de apoio (cafés, quiosques, esplanadas, etc.) formam uma relação com o jardim e devem ser entendidos como elementos que servem toda a população e não apenas um setor com maior poder de compra. É dentro deste conjunto que se deve avaliar o ‘café amarelo’. O seu valor não era apenas arquitetónico, mas social”.

Citando um artigo publicado na revista Time Out Lisboa, no artigo “Brunch, super-sandes e cartadas: o quiosque do Jardim da Estrela com selo Olivier”, publicado em 13 de junho de 2026, o atual ESTRELA by Olivier “corresponde a uma profunda alteração do conceito e do funcionamento do estabelecimento”. Ademais, a própria publicação refere que “o desafio partiu do responsável pela concessão, Bernardo Delgado, que sentia necessidade de rever por completo o que ali se fazia”. Olivier da Costa explica, por sua vez: “Vim aqui ver o espaço e fomos maturando as ideias até chegarmos a este conceito.” A Time Out descreve o novo estabelecimento como “o primeiro conceito do grupo Olivier pensado para todas as horas: do pequeno-almoço ao jantar”, aumentando a área da cozinha e reduzindo o número de lugares no interior.

Assim, interpreta-se que o antigo edifício e conceito foram alterados para um modelo de “all-day dining”, pensado para oferecer pequeno-almoço, brunch, almoço, lanche, sunset, jantar e drinks, à semelhança de outros estabelecimentos deste tipo na cidade.

Este caso concreto transforma-se numa “oportunidade para discutir um fenómeno urbano mais amplo”. “Esta questão não pode ser separada da transformação mais ampla de Lisboa. A valorização imobiliária, o turismo, o investimento e a chegada de residentes internacionais com maior poder de compra contribuem para uma pressão sobre a habitação e sobre determinados espaços da cidade, especialmente os públicos. A defesa do Jardim da Estrela é, portanto, também uma defesa do direito a permanecer na cidade, onde equipamentos como o ‘café amarelo’ funcionam como âncoras”.

“Defendemos uma mudança equilibrada para todos, incluindo para os residentes estrangeiros: acolher novas formas de viver o Jardim sem apagar a memória e a identidade que estes mesmos residentes encontram em Portugal. Um jardim público pode acolher novos usos sem deixar de ser público no sentido mais profundo da palavra: um lugar onde diferentes pessoas se sentem pertencentes”, acrescenta.

Em conclusão, o movimento questiona se O ESTRELA by Olivier no Jardim da Estrela é um ponto de partida para um novo modelo de cidade. “Este caso não deve ser entendido como uma questão entre cidadãos e um concessionário, mas entre os cidadãos que desejam usufruir dos espaços e as instituições municipais”.

“Existe um edifício alterado, um novo conceito e um novo perfil de utilização mais exclusivo. A questão que se coloca é se esta ideia de ‘all-day dining’ será uma exceção ou se passará a ser a regra noutros jardins públicos”, questionam.

Se os processos e ideias que conduziram à substituição do “café amarelo” forem considerados adequados, “é muito possível que se tornem um modelo a seguir para futuras concessões”, assevera. Mas, se a análise das entidades competentes revelar desconformidades, “deverão ser adotadas as medidas de reposição da legalidade incluindo, quando juridicamente corresponda, a recomposição do emblemático edifício e da função de espaço comunitário que o caracterizava”, conclui.

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