Isaltino Morais alerta para a necessidade de haver firmeza na defesa da democracia

O presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Isaltino Morais, marcou presença na cerimónia que assinala o “Dia da Libertação dos Presos Políticos da Cadeia de Caxias”. O autarca lembrou que os democratas portugueses devem “estar vigilantes” face aos perigos advindos dos populismos e manter-se firmes na defesa da democracia.

O Município de Oeiras assinalou, no passado dia 27 de abril, os 52 anos da libertação dos presos políticos do Forte-Prisão de Caxias, com uma cerimónia de homenagem junto ao monumento escultórico evocativo deste acontecimento histórico, localizado à entrada da Quinta Real de Caxias.

Promovida pela União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) e a Câmara Municipal de Oeiras, a iniciativa teve lugar nas imediações do monumento “Libertados e Libertadores”, localizado junto à estação de comboios de Caxias.

Nos dias que sucederam à “Revolução de Abril”, familiares e populares concentraram-se junto ao Forte de Caxias, exigindo a saída dos detidos políticos. A ação decisiva de militares e civis permitiu a libertação de 85 presos políticos na madrugada de 27 de abril, data que continua a ser celebrada anualmente como um símbolo da liberdade.

⁠O presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Isaltino Morais, participou na cerimónia, onde também marcaram presença outros membros do executivo municipal, bem como representantes da União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP), antigos prisioneiros políticos e familiares, entre outros presentes.

Ex-preso político tece elogio a Isaltino Morais

Em representação da URAP, falou Abílio Costa, ex-preso político em Caxias. O resistente antifascista agradeceu o gesto de reconhecimento do Município de Oeiras, lembrando o papel do 25 de Abril na “libertação da longa noite fascista” do Estado Novo e a ação decisiva dos “capitães de Abril que perceberam rapidamente que a libertação dos presos de Caxias e de Peniche era indissociável do 25 de Abril”.

Emocionado, Abílio Costa lembrou todos aqueles que, como ele próprio, “sofreram a repressão, a prisão e a tortura”, agradecendo a Isaltino Morais, e ao Município de Oeiras, o facto de não deixarem apagar a memória todos os presos políticos em Caxias. “O Sr. presidente Isaltino Morais sempre percebeu a importância da nossa luta e sempre nos acompanhou na preservação da nossa História. Exemplo maior deste apoio, é o projeto da autoria da pintora Graça Morais, encomendado pela Câmara de Oeiras e que está patente no Palácio Anjos, em Algés. Esta obra, intitulada ‘Da Escuridão para a Luz’ será ampliado num painel e colocada junto à Cadeia de Caxias, imortalizando o tormento dos cerca de 10 mil presos políticos que por ali passaram”, narrou, terminando a sua intervenção com um agradecimento sentido a Isaltino Morais.

Uma evocação histórica (e pessoal) a propósito da liberdade 

Perante pessoas que estiveram presas, membros da União de Resistentes Antifascistas Portugueses e da Federação Internacional, Isaltino Morais contactou com várias pessoas que marcarem presença na iniciativa, perguntado de onde vinham. Uma senhora de cabelo alvo, respondeu, com orgulho, “vimos do Seixal”, Isaltino Morais replicou: “O Seixal é uma terra de comunistas…”, provocando sorrisos entre os presentes.

Mais a sério, o autarca sustentou que esta iniciativa reforça a importância da preservação da memória histórica e da valorização contínua da liberdade e da democracia.⁠ Isaltino Morais recordou a sua vivência durante o regime do Estado Novo e a sua participação na Guerra Colonial, onde ficaria a conhecer “as tensões que existiam por dentro (do regime) na Guerra Colonial”, admitindo ser hoje “difícil as pessoas perceberem isso” a não ser “que estudem as diferentes versões da História de Portugal”.

O autarca falou da sua experiência pessoal para trazer à liça o clima que se vivia na época do salazarismo e o doutrinamento que o regime impunha à população. “Eu fui estudar para Bragança com 11 anos. Não me passava pela cabeça que, passados 8 ou 9 anos, teria de embarcar para a Guerra Colonial (…) foi muito estranho ter de ir para Angola, mas durante aquele período ouvia-se nas ruas de Bragança a frase ‘Angola é nossa’…”

Isaltino Morais alertou para uma tendência de falar destes acontecimentos “com uma ignorância extraordinária” sobre ditadura, criticando os “novos revisionistas da História” que, no fim de contas, “só falta deitar abaixo o Forte de Peniche para dizerem que nada aconteceu…”.

O autarca assinalou o “papel histórico dos capitães de Abril, independentemente do percurso pessoal que, depois, cada teve”, lembrando que “o povo se apropriou da Revolução” e “da liberdade que lhe foi dada”, tendo sido consolidado o processo democrático com a Constituição de 1977.

Democratas “vigilantes”

Isaltino Morais alertou ainda para os perigos que podem implodir o atual sistema democrático, chamando à atenção para aqueles “quem nem escondem ao que vêm”, acentuando que os democratas devem demonstrar que “estamos aqui para defender a liberdade”. “Eles aparecem devagarinho”, mas é preciso lembrar que “os grandes ditadores irromperam por via de eleições democráticas, não foi através de grandes revoluções”, pelo que é fundamental os democratas “manterem-se vigilantes”.

No local onde se concentraram alguns ex-presos políticos e seus familiares há desde 2020 um memorial. A obra, assinada pelo escultor Sérgio Vicente, está localizada em frente à estação de caminho-de-ferro de Caxias, onde, diz-se, “eram esperados pela polícia política provida de cães, os familiares e visitas dos presos, com a intenção de os amedrontar, explicou Isaltino Morais.

Isaltino Morais prometeu uma nova obra de homenagem, com os nomes dos mais de 10 mil presos políticos que passaram por Caxias, junto à Cidade do Futebol, que espera inaugurar em junho pelo aniversário do concelho.

 

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