A poucas centenas de metros do centro de Sintra, o Lourel faz parte da União de Freguesias de Sintra e tem hoje uma realidade “paralela” à azafama do turismo de massas que tomou conta da vila de Sintra. Os moradores e comerciantes dão graças por estarem o suficientemente afastados do rebuliço do centro histórico e conseguirem preservar o sentido de comunidade.
A localidade de Lourel vive aninhada no sopé da Serra de Sintra, a pouco menos de 1 km da vila histórica de Sintra que é considerada por muitos como a “mais bela de Portugal” e o expoente máximo do romantismo em Portugal. Classificada como Património Mundial da UNESCO, a vila é famosa pelos seus palácios de contos de fadas, como o Palácio da Pena e a Quinta da Regaleira.
Apesar de estar praticamente cerzida com a vila de Sintra, a localidade está o suficientemente afastada do centro histórico da vila para os moradores consideraram que vivem numa realidade “paralela”, que nada tem a ver com o fenómeno de “turistificação” que tomou conta de Sintra nos últimos anos.
Os moradores reconhecem que o “turismo” ainda “anda lá pela vila”, mas agradecem e preferem manter o seu “cantinho” sem turismo de massas, numa vivência mais tranquila, sem os atropelos próprios dos locais enxameados de turistas.
O Lourel é, ainda hoje, um território com fortes tradições saloias, em que o sentido de comunidade convive bem com a modernidade dos novos tempos. Nos últimos anos, dois supermercados de cadeias internacionais vieram fazer companhia a um outro bem conhecido, mas nacional. Na mesma zona da localidade, abriu também uma farmácia moderna e bem equipada, há muito ansiada pelos habitantes.
A importância de viver em comunidade
Os moradores mais antigos fazem do café “A Paragem” o ponto encontro e de convívio. O proprietário do estabelecimento comercial, Bruno Feliciano, tomou conta do negócio, que era dos pais, há uns bons anos e conhece como ninguém o desenrolar da história do Lourel.
Bruno explica que o território tem tido muita procura de habitação, reconhecendo, porém, que a habitação “é hoje o grande problema vivido no Lourel”.
“Estamos com o mesmo problema que está a alastrar a todo o país. Há muitas pessoas que não conseguem arranjar casa, outras que têm de partilhar casas, porque a situação não está fácil para ninguém”, sustenta.
Ainda assim, o comerciante reconhece que o Lourel tem vida própria, cujo quotidiano não se reflete na realidade que tomou conta do centro histórico de Sintra. “As pessoas aqui ainda têm uma vida em comunidade. Convivem entre si e fazem deste território o centro das suas vidas. Apesar de cada vez mais haver pessoas de fora (portugueses e estrangeiros), há ainda o sentido de entreajuda tradicional das terras ‘pequenas’ e isso continua a ser louvável”, assinala.
Bruno Feliciano tem acompanhado os “altos e baixos” do Lourel e não se mostra particularmente preocupado com o risco de perda de identidade comunitária dos moradores. A parte norte da localidade há muito que é considerada um “dormitório” para a classe média mais abastada. De facto, esta zona tem já condomínios fechados e moradias que ultrapassam os seis dígitos (mais de 1 milhão de euros) e é lá que se concentram as superfícies comerciais, mas a área mais encostada à vila de Sintra “mantém as tipicidades sintrenses” e os hábitos de vida em comunidade.
O comerciante reconhece que a vinda de comércio de grande escala para o território, tem vindo a prejudicar o pequeno comércio, mas assume que o “grande problema” está diretamente relacionado com o fluxo de tráfego automóvel, principalmente nas horas de ponta, e com o “mau estado de conservação das vias” e a “higiene urbana”, que deixarão muito a desejar.
O café de Bruno Feliciano é também uma espécie de entreposto (informal) de procura de casa. Basta vezes, os forasteiros deslocam-se até ao espaço para pedir informações sobre o mercado de arrendamento da zona. Tido como um homem de coração no lado certo, Bruno reconhece que se compadece com os estrangeiros que procuram a sua ajuda, criticando os “populismos” que “veem nos migrantes as causas dos nossos males”, quando “são apenas pessoas como nós que estão à procura de uma vida melhor para eles e para as suas famílias”.
Quanto à mudança de ciclo político na Câmara de Sintra (Marco Almeida substituiu Basílio Horta), o comerciante mostra um otimismo moderado, admitindo que o novo edil de Sintra “sabe comunicar nas redes sociais” e “mostra vontade” de mudar a “inércia que tomou conta do concelho”.
“Basta olhar para aquilo que foi feito em Oeiras e ver o estado geral em que está Sintra”, atira, mas só o tempo poderá aquilatar se “Sintra vai tomar ou novo rumo ou se vai ficar tudo na mesma”.
Apesar das contingências, o comerciante alega que ter um negócio (ou viver) no Lourel “ainda vale muito a pena”, por que “é um local sem criminalidade” e onde “ainda se tem qualidade de vida”.
Negócio “para ajudar a comunidade”
No minimercado de Patrícia Guerreiro também já se faz sentir o efeito de secagem provocado pela instalação dos dois novos supermercados no bairro dos moradores mais abonados, a norte. A comerciante vive no Lourel há 25 anos e assume que o passo de tomar conta de um minimercado foi fruto da sua vontade de “participar na vida da comunidade”.
No seu negócio, trata os clientes pelo nome próprio e mostra sempre boa-vontade para tirar dúvidas ou ajudar, principalmente os clientes mais idosos.
“Neste momento, as coisas não estão fáceis, porque está tudo muito parado, mas temos de ajudar a comunidade. Temos clientes com muita idade e, para eles, prestamos um serviço indispensável. Compram aqui os bens essenciais, mas também vêm até cá porque precisam de atenção, de conversar e desabafar sobre os seus problemas. Em alguns casos, levamos-lhes as compras a casa, um serviço que eles agradecem, até porque muitos estão sozinhos durante o dia…”, anota.
Patrícia Guerreiro reconhece que “é impossível” competir com a concorrência dos grandes grupos de distribuição que vieram ocupar uma fatia de mercado assinalável na localidade.
Mas, assume, porém, que o seu pequeno negócio vai resistindo graças a uma aposta nos produtos biológicos e de produção local, um fator que demarcará uma fronteira entre a oferta de produtos do comércio tradicional e aquilo que pode ser comprado num hipermercado.
“Nós apostamos em produtos que são de origem local e nacional e que os grandes supermercados não têm. E isso ajuda a demarcar uma grande diferença para a realidade dos grandes grupos”, assevera.
Por outro lado, a comerciante assinala que a “atenção ao cliente” e a “proximidade” entre quem vende e quem compra neste tipo de comércio nada tem a ver com o atendimento despersonalizado de um hipermercado.
O minimercado de Patrícia está um pouco afastado da zona “mais rica” da localidade, mas a comerciante congratula-se pelo facto de ter “vários clientes de todo o tipo e da classe média alta”, como “médicos e empresários” que optam por fazer a aquisição dos famosos pães de Janas ou de Odrinhas, frutas, legumes e produtos de charcutaria no espaço “porque sabem que são produtos de qualidade superior”.
Quanto à realidade demográfica do Lourel, a comerciante dá graças por continuar a habitar uma zona que tem passado incólume ao fenómeno turístico do centro da vila de Sintra, pese embora “haver cada vez mais estrangeiros” a procurar casa no Lourel ou que já se mudaram de armas e bagagens para a localidade.
Para Patrícia Guerreiro, o Lourel continua a ser o segredo mais bem escondido de Sintra e agradece por continuar a viver num sítio calmo, “onde as crianças ainda brincam na rua”, onde a solidariedade e o espírito de comunidade prevalecem sobre realidades onde já se perderem estes valores.
Mais espaços para as crianças brincarem
Francisco Almeida é filho da terra. Nasceu no Lourel e viveu a vida toda no local que o viu nascer. Assume que tem assistido à evolução demográfica da localidade, mas lamenta que esse crescimento não tenha sido respaldado por equipamentos “para as crianças”, pois o Lourel “foi esquecido” pelo poder local.
O morador sustenta que a ação dos presidentes de Junta “está toda virada para o centro da vila”, tendo sido o Lourel prolongadamente “ignorado” pelos detentores do poder local.
Face à mudança da cadeira do poder no Município, Francisco Almeida tem expetativas moderadas. “O novo presidente de Câmara parece ser um homem que toma iniciativas, mas vou esperar para ver se há mesmo ações concretas para mudar as coisas”.
O morador revela que a localidade está apartada do centro da vila, mas “sofre imenso com o trânsito horrível” que “todos os dias inferniza a vida das pessoas”, bem como o “caos” na higiene urbana.
Pese embora os reparos à alegada indiferença de que o Lourel estará a ser alvo, o sintrense dos quatro costados admite que viver no sítio que o viu nascer “continua a ter muitas vantagens” porque “ainda há certa qualidade de vida, mesmo as pessoas mais idosas” por ser um local “pacato” e onde não há registo de “grandes alaridos” ou situações “mais complicadas”, como as registadas “em outras freguesias do concelho”.
O morador, que é avô, reitera que as crianças do Lourel são obrigadas a brincar na rua, uma situação que considera “perigosa” por conta do trânsito “infernal” que atravessa o Lourel — a localidade é trespassada por muitos automobilistas que se deslocam para o centro da vila ou para as praias do concelho.
“Há por aí tantos terrenos da Câmara. Podiam construir skates parque e coisas do género para as nossas crianças poderem brincar em segurança”, aponta.
A inebriante beleza da Serra de Sintra
Rita vem vestida de forma casual e com o cabelo apanhado. Desloca-se pelo centro da localidade em marcha lenta, justificando o “desmazelo” com a imagem pelo facto de estar de folga e de ter aproveitado para descomprimir, fazer pequenas compras de mercearia e caminhar um pouco.
Habituada ao “stress de Lisboa”, assume que resolveu mudar-se para o Lourel para ter uma vida mais tranquila, mas também para ter “mais espaço e poder respirar os ares de Sintra”.
Revela que, com o dinheiro arrecadado com a venda de um T3 no centro de Lisboa, adquiriu uma vivenda de 4 quatro quartos, jardim e anexo para as visitas.
A nova moradora assume que “está rendida à beleza de Sintra” e que, acima de tudo, fica encantada todas as manhãs ao abrir a janela do seu quarto e deparar-se com a enigmática Serra de Sintra e o Palácio da Pena envolto no típico nevoeiro sintrense.




