Três centenas de crianças puseram o Pavilhão do Casal Vistoso, no Areeiro, em estado de êxtase coletivo. As Marchas Infantis das Coletividades de Lisboa arrastram uma multidão de fervorosos apoiantes, mas também quatro presidentes de Junta de Freguesia e uma das figuras mais respeitadas do mundo das Marchas de Lisboa, Pedro Franco. O histórico dirigente associativo, e que foi jurado das Marchas de Lisboa anos a fio, considera a iniciativa como um ato de resistência e a passagem de testemunho para os mais novos do futuro das tradições lisboetas.
O Pavilhão do Casal Vistoso esteve ao rubro. E não foi só pelo calor abrasador que se sentiu dentro daquele equipamento desportivo na freguesia do Areeiro na tarde do domingo. O calor humano elevou os termómetros aos píncaros, vivenciando-se uma verdadeira festa bairrista, com cânticos e gritos de incentivo. Realizaram-se omtem, dia 14 de junho, as Marchas Infantis das Coletividades de Lisboa, que envolveram cerca de 300 marchantes de palmo e meio e as suas fervorosas falanges de apoio.
A edição desta iniciativa tem vindo a crescer de ano para ano. As Marchas Infantis das Coletividades 2026 contaram com seis grupos de marchantes, mais dois do que no ano passado (Bairro Alto e Alcântara).
Em grande estilo e com total entrega na defesa das cores de cada bairro, desfilaram três centenas de crianças das freguesias do Beato, Bairro Alto, Alto de Pina, Penha de França, Marvila e Alcântara.
Pedro Franco sustenta a importância das novas gerações
Em mês de Mundial de Futebol, a plateia, constituída por pais, irmãos, avós e amigos dos pequenos marchantes, alguns deles com apenas 3 anos, mais pareciam uma claque de futebol, tal foi o entusiasmo e o orgulho de ver as proles a lutarem pelos bairros, meneando as ancas e dando vivas a Lisboa e às suas gentes.
Pedro Franco é uma das figuras mais respeitadas por toda a gente no mundo das Marchas. Durante anos a fio foi presidente do júri das Marchas Populares de Lisboa e presidente da Associação das Coletividades do Concelho de Lisboa. Senta-se, tranquilo, na primeira fila a observar as movimentações das crianças e dos ensaiadores. Ninguém fica indiferente à sua presença, cumprimentando-o de forma efusiva, mas respeitadora, trocando com ele dois dedos de conversa.
Pedro Franco veio propositadamente da sua casa de férias no Alentejo para assistir ao desfile infantil. Com problemas de saúde, confidencia a uma amiga “que não podia faltar, nem que viesse de muletas…”.
Em declarações ao “OL”, o histórico dirigente associativo e que desde sempre defendeu esta iniciativa, mostra-se orgulhoso de o evento ainda se manter de pé, apesar de continuarem a faltar os apoios oficiais da Câmara de Lisboa.
Para o dirigente, as Marchas infantis dos bairros e das coletividades traduzem o “verdadeiro bairrismo” do povo de Lisboa e ajudam a perpetuar “a alma dos bairros e da cidade”, pondo à flor da pele “o amor que as pessoas dos bairros sentem pelos locais que os viram nascer, cresceram e se fizeram homens e mulheres”, sustenta.
Lisboeta de gema e ex-futebolista profissional (Sporting, Oriental, entre outros), Pedro Franco assevera que as Marchas infantis constituem algo parecido com o processo que é levado a cabo nas camadas jovens dos clubes de futebol, transformando “projetos de jogadores” nos homens e mulheres que transitam para as equipas profissionais. “As Marchas infantis são fundamentais para manterem esta tradição viva. É daqui que saem os futuros marchantes da Avenida e que se vive o verdadeiro bairrismo lisboeta”, assegura, acrescentando que os pais e as próprias crianças “são os genuínos bairristas da cidade”, sendo as crianças os herdeiros da verdadeira tradição das Marchas.
O histórico dirigente associativo revela que não entende a indiferença da Câmara Municipal de Lisboa ante esta iniciativa das coletividades. “Já falei com o presidente da Câmara (Carlos Moedas) várias vezes sobre a importância destas Marchas. Parece que o autarca ainda não percebeu aquilo que está em jogo, que é a sobrevivência destas tradições, mas estou esperançado que futuramente a CML comece a apoiar esta iniciativa. Está em jogo a manutenção da alma de Lisboa”, aponta Pedro Franco.
Para o dirigente, está em causa algo mais que as tradições das Marchas: o sentido de comunidade e, para aqueles que foram obrigados a saírem para outras paragens, significa o regresso aos bairros onde nasceram, crescerem e se fizeram homens e mulheres.
O público presente no desfile mostrou verdadeira paixão pelas cores das suas Marchas. Os pais, avós, irmãos e amigos dos petizes marchantes gritaram bem alto os nomes dos seus territórios, pondo o pavilhão em estado de total efervescência e euforia coletiva.
Depois do desfile da sua Marcha terminar, umas das mães mais entusiastas na bancada segura a filha pela mão. A pequena, de 5 anos, ainda está um pouco nervosa, mas a adrenalina começa a baixar e conta à mãe as peripécias do desfile. A progenitora assume-se “muito orgulhosa” pelo desempenho da sua cria, que não se acanhou e “cumpriu a tradição da família”, meneando as ancas e dando vivas à cidade de Lisboa e suas gentes.
Cátia lembra os seus tempos marchante e também dos seus pais, todos eles marchantes na Avenida. Mas, acima de tudo, recorda os ensaios e as brincadeiras com a sua “segunda família”, os amigos do bairro que, entretanto, foi perdendo de vista porque, muitos deles, já não moram no sítio onde cresceram.
Um dos avós presente nas bancadas está feliz com o desempenho do seu neto. Visivelmente comovido, esconde as emoções atrás de um par de mãos calejadas e um lenço com que limpa o rosto e as lágrimas.
O Senhor José é um homem de poucas palavras. Mas confessa que o momento lhe trouxe a sensação de que a prole de filhos e netos “vai continuar a lutar por manter a chama do bairrismo por muitos anos”.
Autarcas unidos na defesa das Marchas infantis
A iniciativa contou com a presença de quatro presidentes de Junta de Freguesia, designadamente da Misericórdia, Areeiro, Alcântara e Beato.
Carla Almeida, presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia, disse que não podia faltar ao encontro. Com o apoio da autarquia, a Marcha Infantil do Bairro Alto (os “Altinhos”), da responsabilidade do Lisboa Clube Rio de Janeiro, fez a sua estreia neste evento.
A autarca acredita a presença dos “Altinhos” na iniciativa é uma forma de “demonstrar a adesão da freguesia” a este perpetuar das tradições históricas e culturais da “verdadeira cidade”. Carla Almeida considera que a “descaraterização da freguesia” tem vindo a acentuar-se nos últimos anos. “Desde 2013 até ao momento atual, perdemos mais de 5 mil eleitores. A nossa presença aqui significa que há uma vontade imensa de partilhar a tradição e de atrair população para freguesia, porque nós precisamos de mais casas para viver, que tem sido substituída pelo alojamento local, para que as que pessoas que amam a Misericórdia possam voltar para sua casa”.
Para Carla Almeida, de resto, esse “amor ao território” é expresso “durante as Marchas”, quando muitos se transformam “em um só”. “Nas Marchas, muitas pessoas que foram obrigadas a sair dos nossos bairros, voltam aos sítios onde foram felizes, vêm assistir aos ensaios e apoiar os seus bairros efusivamente. Há uma grande comunhão bairrista, muita alegria”, mas também muitas lágrimas por terem sido expulsos da terra que os viu crescer.
“Os nossos pais tinham uma terra (nas Beiras, Trás-os-Montes, Alentejo). Eu não tenho uma ‘terra’. Sou do Bairro Alto e é ali que tenho todas as memórias de infância e de juventude. Fico muito feliz por ver que as nossas crianças e jovens estão a dar continuidade a tradição que é tão nossa e representa a alma de Lisboa. As Marchas são um acontecimento que consegue unir os lisboetas num elo muito forte, unindo aqueles que continuam por cá com aqueles que não têm dinheiro para poder viver nos seus bairros”.
Para Carla Almeida, as crianças da Misericórdia – uma freguesia que tem três Marchas infantis — “Os Altinhos”, Marcha da Bica e Marcha das Escolas — serão os futuros porta-estandarte das tradições alfacinhas e dos modos de vida genuinamente lisboetas. “A continuidade e a tradição está assegurada”, conclui.
Também a Marcha Infantil de Alcântara se estrou neste evento. Com uma das claques de apoio mais fervorosas, contou também com a presença do presidente da Junta de Freguesia, Mauro Santos, que se apresentou com um cascol da Marcha de Alcântara ao pescoço.
O autarca considera que esta estreia dos marchantes mais pequenos nesta cerimónia há muito que estava equacionado pela Sociedade Filarmónica Alunos Esperança, mas que só agora foi possível “por haver disponibilidade” para participar num encontro que “tem um significado especial”, uma vez que as Marchas infantis representam a “passagem de testemunho” e a “continuação das tradições da nossa freguesia”.
Mauro Santos elogia o “envolvimento de toda a comunidade”, que se deslocou em peso para apoiar as crianças de Alcântara. “Foi muito bonito vermos aqui hoje marchantes mais velhos, antigas mascotes da Marcha sénior, os pais e os familiares das nossas crianças. É algo que a nossa freguesia valoriza, defende e vai continuar a investir no apoio à força das gentes de Alcântara e da inovação que trazemos”.
O autarca considera ainda que a locomotiva da descaracterização que “está a tomar conta da cidade, numa Lisboa com cada vez menos lisboetas”, torna-se crucial “incutir os valores aos mais novos e mostrar-lhes o que é história de Lisboa e na forma como as crianças podem construir história da sua cidade. As Marchas unem as pessoas, mesmo aquelas que foram obrigadas a sair da cidade, e mobilizam milhares de pessoas na defesa a sua freguesia e da própria cidade”.
O presidente da Junta de Freguesia do Areeiro, Pedro Jesus, tem sido um dos pilares desta iniciativa. Desde o primeiro momento, o autarca mostrou-se disponível para erguer a realização das Marchas Infantis das Coletividades – foi através da influência do autarca que se conseguiu a cedência do Pavilhão para o desfile.
Pedro Jesus salienta que a autarquia, na edição deste ano, transmitiu a iniciativa em direto (via streaming) para todo o mundo, pondo à disposição da iniciativa uma equipa de profissionais contratados pela Junta de Freguesia do Areeiro.
O autarca, que já foi dirigente associativo das coletividades, não considera que essa experiência lhe traga “uma sensibilidade especial sobre este evento”, uma vez que, “mesmo que não tivesse sido (dirigente associativo)”, abraçava este evento, “que é algo muito bonito e que merece ser acarinhado”, pois ajuda a fecundar o berço das tradições alfacinhas.
Para o presidente da Junta de Freguesia do Beato, Silvino Correia, as Marchas Infantis das Coletividades representam “muito mais do que o manter das tradições”.
A freguesia do Beato vive a braços “com alguns problemas sociais” que importa ter em atenção. “Dar apoio às associações da freguesia, como “Os de Baba”, é fundamental para manter as nossas crianças no caminho certo, dando-lhes uma perspetiva de vida diferente daquilo que é replicar receitas antigas que levam à pobreza e à exclusão social. É muito importante apoiar as crianças e na possibilidade que elas tenham um futuro melhor”, conclui.
Esta iniciativa nasceu no seio de quatro coletividades da cidade de Lisboa. Este grupo informal de coletividades entende que há o perigo real de as marchas serem descaraterizadas ou mesmo desaparecer. O grupo de fundadores é constituído pelos “Os De Baba”, Beato, a Sociedade Musical 3 de Agosto, “Marvila Kids”, “Os Fidalgos da Penha”, Penha de França, e Lisboa Clube Rio de Janeiro, Bairro Alto (“Os Altinhos”), que continuam a batalhar para se afirmarem como bastião de resistência na preservação dos valores populares e bairristas.
O desfile das Marchas contou com seis grupos de marchantes, tendo desfilado pela seguinte ordem:
1º — Marcha Infantil do Beato
Organização: Associação Desportiva “Os de Baba” Tema: “O brilho dos pirilampos” Ensaiadora: Filomena Gomes (Mena)
2º — Marcha Infantil do Bairro Alto, “Os Altinhos”
Organização: Lisboa Clube Rio de Janeiro Tema: “A fada dos doces e o pasteleiro louco” Ensaiador: Gustavo Francisco
3º — Marcha Infantil do Alto de Pina
Organização: Ginásio do Alto de Pina, “Os Altopininhas” Tema: “Alto de Pina somos nós” Ensaiadora: Rita Ramos
4º — Marcha Infantil de Alcântara
Organização: Sociedade Filarmónica Alunos Esperança, “Os Putos de Alcântara” Tema: “O futuro somos nós” Ensaiadores: Direção da Sociedade Alunos da Esperança
5º — Marcha Infantil da Penha de França
Organização: Fidalgos da Penha Tema: “Lisboa, a namoradinha da Europa” Ensaiadores: Ariana e João Silva
6º — Marcha Infantil de Marvila
Organização: Sociedade Musical 3 de Agosto Tema: “Marvila à luz das velas” Ensaiadores: Cristina Silva e Alexandra Coito
Veja ou reveja os videos em direto no Olhares de Lisboa : instagran ou no facebook


