No Dia Mundial da Bicicleta, o “Portugal Mobi Summit” debateu a mobilidade ativa, com um foco especial no uso da bicicleta em contexto urbano. O presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Isaltino Morais, revelou que o concelho vai continuar a apostar na construção de vias próprias para a circulação de bicicletas, tendo como propósito ter 90 quilómetros de ciclovia nos próximos tempos.
O Município de Oeiras recebeu hoje a “Portugal Mobi Summit”. A conferência, promovida pela Parques Tejo, dedicada à mobilidade ativa e sustentável, realizada no Parque dos Poetas.
Isaltino Morais reforçou a importância da bicicleta como meio de transporte sustentável, saudável e eficiente, num momento em que as cidades portuguesas procuram soluções para reduzir emissões, melhorar a qualidade de vida e incentivar formas de mobilidade mais amigas do ambiente.
O presidente da Câmara de Oeiras abriu o evento que reuniu especialistas, investigadores, autarcas e representantes de entidades ligadas à mobilidade sustentável, num debate centrado na promoção do uso da bicicleta em contexto urbano.
O autarca destacou que o Município está apostado em criar infraestruturas que melhorem a circulação de bicicletas no território, avançando que Oeiras terá brevemente 90 quilómetros de ciclovias. Mas sublinhou que a existência das ciclovias per si não significa a mudança de hábitos e comportamentos mais amigos do meio ambiente, pois é necessário oferecer uma rede de transportes intermunicipal e devidamente concertada para atrair os cidadãos para este meio de transporte.
Em declarações aos jornalistas, Isaltino Morais partilhou uma reflexão sobre as políticas públicas praticadas no território, que vão muito além daquilo que se considera, no caso de Oeiras, como os chavões relacionados com a necessidade de promover políticas de combate às alterações climáticas, porque o território foi recentemente classificado com 100 pontos, numa escala de 0 a 100, na promoção de medidas de combate às alterações climáticas. “Somos os melhores a nível nacional nesta matéria”, considerou.
Políticas públicas concertadas e na defesa da saúde pública
Isaltino Morais destacou a importância da bicicleta como um meio de transporte sustentável, eficiente e promotor de um estilo de vida saudável e de combate às alterações climáticas. O autarca apontou, no entanto, que nem só da promoção da bicicleta como meio de transporte ecológico se alimenta o plano municipal de sustentabilidade ambiental, como o incentivo à adoção de hábitos de vida ativos por parte da população de todas as idades. “Importa sensibilizar as pessoas para, pelo menos uma vez por semana, andarem 3 ou 4 quilómetros ou se dediquem a uma atividade física. Mas, em simultâneo, a Câmara Municipal também fornece equipamentos de fitness um pouco por todo o concelho. Ou seja, há todo um plano de promoção da atividade física que vai além do uso da bicicleta, como resultado de uma política que contribui para a descarbonização e para os objetivos da sustentabilidade”.
O autarca reforçou que Oeiras “é um dos municípios mais saudáveis do país”, ao abrigo das políticas municipais e da oferta desportiva que justamente proporcionam atividade física a “72% da população de Oeiras”, que praticam alguma atividade “pelo menos, uma vez por semana”.
Por outro lado, Isaltino Morais destacou que o concelho tem indicadores da prevalência de doenças cardíacas ou obesidade “muito abaixo dos registados na área metropolitana de Lisboa”, porque tem empregos “de valor acrescentado” e trabalhadores com rendimentos mais elevados “que podem investir mais na sua saúde e educação”.
Para Isaltino Morais, o resultado final dos índices de bem-estar geral em Oeiras decorre do aumento da qualidade de vida geral da população, e está intimamente relacionado com um planeamento geral que conflui no sentido de aumentar a oferta de equipamentos desportivos, o acesso a espaços públicos para a prática de atividade física, assim como a plantação de extensas áreas verdes.
“Este parque (dos Poetas) é o maior parque de arte pública do país e único a nível nacional. Temos também a Fábrica da Pólvora e uma quantidade enorme de parques e espaços verdes que permitem que as pessoas descontraiam. Tudo isto assenta numa estratégia municipal, que começa na oferta de habitação, porque sem habitação digna, não posso pedir às pessoas que tratem do corpo, pois a sua preocupação é outra”.
Para Isaltino Morais, o plano municipal de mobilidade não passa exclusivamente pela construção de ciclovias. “Quando nós investimos, por exemplo, em infraestruturas para acolher o transporte público, há planeamento que não pode ser territorializado, porque é necessária uma estratégia metropolitana. Tem de haver um investimento da área metropolitana de Lisboa, uma vez que não faz sentido ter bons transportes em Oeiras e nos concelhos vizinhos encontrarem uma realidade muito pior. Por exemplo, a linha de comboio do Estoril há 70 anos que não tem uma carruagem nova. Claro que as pessoas preferem ir de carro para o trabalho, porque não têm conforto”.
Em suma, o autarca defende que a mobilidade sustentável requer um conjunto de medidas que vão além da sensibilização para os cidadãos “andarem de bicicleta”, exigindo tomadas de posição concertadas entre municípios para que os cidadãos sintam o apelo do transporte público.
Isaltino Morais reconhece que os “municípios portugueses cooperam pouco uns com os outros”, mas há casos pontuais em que a implementação de medidas intermunicipais apresentam resultados “assinaláveis”, como é o caso da criação da Carris Metropolitana, “que tem sido um sucesso extraordinário”, resultando no crescimento da afluência à Carris Metropolitana “na ordem dos 30%”, em Oeiras.
Na ótica do edil, Oeiras tem uma classe média “muito forte”, mas “muito comodista”, pelo que é imperativo que o transporte público “ofereça condições de conforto e que cumpra horários” para contrariar a tendência de os munícipes utilizarem os seus veículos nas deslocações diárias.
BRT / LIOS
O presidente da Câmara de Oeiras aproveitou para revelar que reuniu ontem com a secretária de Estado dos Transportes para tratar da abertura do concurso público do BRT (Bus Rapid Transit), ficando pendente da disponibilidade financeira para abrir o concurso, que rondará os 100 milhões de euros de investimento. “Tudo indica que o concurso avançará ainda este ano ou no início de 2027”.
Portugal está atrasado na difusão do uso das bicicletas
Já a presidente do conselho de administração da Parques Tejo, Mara Duarte, destaca que a conferência pôs em evidência uma realidade em que Portugal tem um longo caminho a percorrer na mobilidade ciclável. “A mobilidade ciclável no nosso país é muito recente. Não temos a mesma maturidade (relativa ao uso da bicicleta) que os países do norte da Europa têm já há muitos anos. Mas, na verdade, para termos uma mobilidade ciclável é necessário construirmos toda uma rede de infraestruturas que permitam que as pessoas circulem com segurança e conforto, que instiguem a equacionar a hipótese de deixar o carro em casa e passarem a andar de bicicleta”.
Em Oeiras, a criação da Parques Tejo foi levada a cabo para gerir os parques de estacionamento do concelho. Mas, “a pedido do Município”, esta empresa municipal passou a olhar para a mobilidade como um todo. “A partir de 2022, foi pedido que arranjássemos soluções para incorporar a bicicleta no quadro da mobilidade sustentável. Oeiras tem hoje cerca de 19 quilómetros de ciclovia, mas a nossa perspetiva é chegarmos aos 90 quilómetros, aumentando nos próximos 2 anos cerca de 30 quilómetros”, afiança.
Estações de LIOS / BRT com estacionamento para duas rodas e ciclovias
Mara Duarte explica que o aumento das vias cicláveis obedece a uma estratégia concertada, que já está em curso. “Passámos a ter reuniões mensais com o Departamento de Obras Municipais, uma vez que a Câmara já pensou e executou ciclovias. Aquilo que nos pedem hoje é que sejamos o braço de execução mais avançado e dedicado na expansão de ciclovias”, asseverou, acrescentado que a estratégia municipal já contempla a instalação de ciclovias, nomeadamente nas vias onde passará o LIOS e o SATU, que vai ter “vias cicláveis dedicadas”.
Segundo a responsável, o facto destes dois grandes projetos de mobilidade no concelho terem já vias cicláveis constitui “o ponto fulcral” de toda a estratégia municipal.
Mara Duarte sublinhou ainda que os designados interfaces modais de transporte terão de ter locais próprios para as pessoas que se deslocam de bicicleta para apanhar um transporte estacionarem as duas rodas de forma segura. A responsável adianta que essa medida já está pensada para novo interface de Algés, mas adianta que importará ter outros idênticos na Grande Lisboa, como forma de se promover uma verdadeira alternativa de transporte e fomentar a mobilidade suave.
Relativamente ao BRT de Oeiras, Mara Duarte confirmou a existência de uma reunião com a secretária de Estado dos Transportes, “onde deixámos uma pen com toda a informação do projeto, sendo que o Governo “já confirmou que o SATU, que ligará Tercena a Massamá, vai avançar”. Porém, falta agora “o dinheiro para se avançar com a obra” em definitivo.
Segundo Mara Duarte, o SATU original, que “estava muito à frente do seu tempo”, vai deixar de existir, para se utilizar um BRT, uma via dedicada onde autocarros elétricos irão fazer todo o percurso que liga Paço de Arcos a Tercena (Sintra)”, replicando o formato que já existe no Metro do Mondego.
Ao longo da manhã, o evento promoveu painéis dedicados às estratégias municipais para a mobilidade ciclável e ao impacto económico da bicicleta, com intervenções de representantes da EMEL, CCDR Centro, Federação Portuguesa de Ciclismo, ABIMOTA, MUBI Lisboa e IP Património.
Por seu lado, a investigadora Rosa Félix apresentou alguns dados sobre mobilidade ciclável em Portugal, abordando indicadores de utilização, barreiras e oportunidades.
O Dia Mundial da Bicicleta foi criado pelo sociólogo e antigo ciclista polaco Leszek Sibilski, juntamente com estudantes universitários, e foi formalmente instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) em 2018. O objetivo é promover a bicicleta como um meio de transporte sustentável, acessível, saudável e que contribui para o desenvolvimento comunitário e ambiental.



