Festas “Nhu Santiago” unem cabo-verdianos de Oeiras e de toda a diáspora

Este ano, as festas de “Nhu Santiago” em Barronhos, Carnaxide, organizadas pela Associação dos Amigos de Santa Cruz, vão reproduzir fielmente as festividades que são organizadas nas ilhas de Cabo Verde, em homenagem ao apóstolo São Tiago e santo padroeiro do município de Santa Cruz, em Cabo Verde. 

Promovida anualmente pela Associação dos Amigos de Santa Cruz, as festas de “Nhu Santiago” têm servido de ponto de encontro da comunidade cabo-verdiana residente no concelho de Oeiras, mas também de muitos outros pontos de Portugal e da diáspora cabo-verdiana espalhada pelo mundo.

Todos os anos, a comunidade cabo-verdiana dos Barronhos celebra, com festa rija, o “Nhu Santiago”, um evento que tem como objetivo celebrar a “alma, a sodade e a morabeza” das ilhas africanas, numa espécie de celebração coletiva das “raízes culturais” de todo um povo que fez da imigração um modo de vida, juntando-se para reviver amizades, celebrar a música e a gastronomia do país, mas também as tradições religiosas.

Joaquim Lopes Tavares, presidente da Associação dos Amigos de Santa Cruz, ainda está a reviver mentalmente os sucessos do desempenho da seleção de futebol de Cabo Verde no Mundial de 2026. O dirigente associativo reconhece que a seleção dos “tubarões azuis” teve uma prestação “épica” e que “foi motivo de orgulho para todos os cabo-verdianos” que estão espalhados pelo mundo.

O dirigente revela que no fim de semana de julho, entre os dias 25 e 26, o bairro de Barronhos, em Carnaxide, recebe artistas cabo-verdianos e portugueses que “sentem a alma” das gentes desta comunidade que emigrou nos anos 70 do século passado para Portugal, mais propriamente para o concelho de Oeiras, na Pedreira dos Húngaros e noutros bairros de barracas disseminados por todo o território.

Celebrar a cultura das ilhas que ficaram para trás

Para Joaquim Lopes Tavares, a homenagem ao São Tiago do povo de Cabo Verde está diretamente relacionada com “o sofrimento do santo” — foi o primeiro apóstolo a ser martirizado, sendo decapitado em Jerusalém no ano 44 d.C. – tal como o “sofrimento das comunidades de migrantes cabo-verdianas” que vieram para Portugal à procura de futuro, mas vivenciaram situações “extramente duras”, vivendo em condições sub-humanas, em barracas sem água nem eletricidade, rodeados de imundice e sofrendo na pele exclusão social.

De acordo com o dirigente, a realização da festa “Nhu Santiago” foi impulsionada pelo líder da paróquia de Nossa Senhora da Conceição, na Outurela (Carnaxide), carinhosamente tratado pelos paroquianos simplesmente por Pe. José Manuel, que fez questão de integrar em Carnaxide os “costumes e a cultura” tipicamente cabo-verdianas.

“Foi o padre José Manuel que nos propôs a ideia de realizarmos uma festa que recriasse as tradições da nossa ilha, incitando-nos a pedir apoios à Câmara de Oeiras e à Junta de Freguesia. Assim fizemos, e o presidente Isaltino Morais disse logo para avançarmos, tal como o presidente da Junta (Inigo Pereira). Os dois autarcas têm sido fulcrais no apoio à nossa festa e dois dos principais apoiantes desta ‘causa’”, sublinha o presidente da associação.

E aproveita para dizer que esta celebração “há muito que excedeu as fronteiras de Oeiras, reunindo cabo-verdianos que vivem noutros concelhos da Grande Lisboa, mas também nos Estados Unidos e por toda a Europa”.

Parte religiosa vai recriar as celebrações originais

Estas celebrações combinam o sagrado e o profano. Na parte religiosa, a festa deste ano terá como novidade a inversão das celebrações religiosas, para replicar as tradições cabo-verdianas. “Este ano, vamos realizar primeiro a procissão e depois a missa, como é comum na ilha. Foi também por sugestão do Pe. José Manuel que alterámos o figurino da parte religiosa, trazendo ainda mais o espírito do nosso país para a nossa festa”.

Joaquim Lopes Tavares assevera que a comunidade “sente” as festas “Nhu Santiago” de uma “maneira muito especial”, unindo-se em torno de um evento “ímpar” de celebração religiosa, mas onde também não é esquecida a alegria tipicamente africana. “Foi um grupo de jovens dos Barronhos que propôs realizar toda a parte musical da festa. Vamos ter batoques, danças tradicionais, funaná, quizombas e coladeiras. Os jovens assumiram que não querem incorporar hip-hop ou outras manifestações culturais alheias ao nosso país, para manterem vivo o verdadeiro espírito de Cabo Verde”, sublinha.

Chamane, Evandro, Meme Landim, Mika, Kutubelada, Filhas São Miguel Batucadeiras, serão alguns dos artistas que irão atuar durante os dois dias da festa.

Para além do povo de Cabo Verde, as festas “Nhu Santiago” costumam contar com a presença de altas individualidades do país, do corpo diplomático, mas também do próprio presidente da República de Cabo Verde, José Neves, que já esteve em Carnaxide em várias ocasiões, representando o espírito de fraternidade entre Portugal e Cabo Verde.

O Município de Oeiras revela que aprovou a atribuição de uma comparticipação financeira de 8.000 euros à Associação Amigos Santa Cruz para as festa de “Nhu Santiago”. 

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