Pero Pinheiro é ainda hoje a capital nacional da atividade de extração da pedra lioz e da sua transformação em mármores de qualidade superior aos de Carrara, na Itália. Ao longo das últimas décadas, a freguesia vivenciou várias oscilações económicas, mas o setor da transformação da pedra tem conseguido resistir às sucessivas crises e continua a estar no centro de toda a atividade económica da vila. O “OL” conversou com mestres canteiros, empresários e moradores sobre o passado glorioso da vila e as incertezas do futuro.
Rezam as crónicas que foi das entranhas da terra de Pêro Pinheiro, Sintra, que se construiu o Palácio de Mafra, se reconstruiu a cidade de Lisboa no pós-terramoto 1755.
A exportação de rochas da região de Pero Pinheiro terá começado ainda no séc. XVII e foi fortemente incrementada nos dois séculos seguintes. A rocha era levada para o Brasil para depois ser utilizada na construção de templos. É por esse motivo que encontramos, sobretudo em São Salvador da Baía, mas também no Rio de Janeiro, várias igrejas com cantaria e estátuas de pedra lioz da região de Pero Pinheiro.
No Estado Novo, a construção de alguns dos mais emblemáticos monumentos nacionais teve como base as rochas da região. Aa estátuas do Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, foram esculpidas em Pero Pinheiro com o calcário na região. a
Ainda no Estado Novo, o célebre arquiteto Porfírio Pardal Monteiro, natural de Pero Pinheiro, projetará muitas das emblemáticas obras modernistas da época (a estação do Cais de Sodré, a Gare Marítima de Alcântara, o Hotel Ritz, entre muitas outras), sendo a sua empresa familiar, fundada em 1888, a fornecer os calcários para grande parte delas.
Porém, o tempo da abundância foi perdendo fulgor, com as flutuações económicas mundiais e as consequentes crises no setor da construção. Em 2007, existiam quatrocentas e oitenta e três empresas da indústria transformadora nesta região, a maioria implantadas na zona geográfica da atual União das Freguesias de Almargem do Bispo, Pero Pinheiro e Montelavar. Na crise do suprime, em 2009, fecharam portas várias dezenas delas, agravando uma crise no setor que tinha sido despoletada pela primeira Guerra do Golfo.
Confidências de um mestre canteiro
O mestre canteiro Joaquim Azevedo está sentado num banco de jardim com um grupo de amigos, junto ao monumento ao canteiro de Pero Pinheiro, no centro da localidade, a ver passar a vida e a recordar as histórias de um passado que já não volta.
Ainda se lembra dum tempo “em que havia centenas de empresas” dedicadas à indústria transformadora da pedra, companhias que “empregavam milhares de pessoas, como a Pardal Monteiro” e de um “um movimento brutal de carros e pessoas” por toda a zona.
Começou a trabalhar na arte de “partir a pedra” aos 11 anos. Foi empregado, criou a sua própria oficina, mas com as “crises no setor”, migrou para a cidade de Braga, onde viveu 30 anos, sempre no seu ofício, a trabalhar as pedras e os mármores.
Aos 88 anos, já só lhe restam memórias de um “trabalho duro e muito difícil” em que se “engoliam quilos de pó”, em que as mãos sofriam cortes e mazelas várias, mas havia “sempre um amor maior à profissão”, por saber que das suas mãos sairiam peças que iriam adornar monumentos e igrejas, mas também as casas onde vivia gente.
Sentado perto da estátua do canteiro, Joaquim Azevedo diz “sentir-se bem” por o poder local ter reconhecido publicamente o labor das centenas de trabalhadores que transformaram a pedra bruta em “mármores de primeira qualidade que estão espalhados pelo mundo” e que deram fama à zona.
O mestre canteiro assume, todavia, que a localidade não acompanhou a “evolução dos tempos”, faltando hoje espaços para as crianças e a juventude “passarem o tempo de forma saudável”, como piscinas e pavilhões desportivos, mas também “mais habitação para as pessoas”.
O octogenário defende ainda a criação de um “espaço onde os antigos canteiros se possam reunir, conviver, e onde seja possível partilharem as suas histórias de vida”.
Falta de estacionamento
O morador Alexandre Ferreira está debruçado sobre a janela de sua casa a fumar “um pensativo cigarro”. Mecânico de pesados, o freguês nascido e criado em Pero Pinheiro recorda “com alguma saudade” o tempo em que a vila “tinha um movimento brutal” com camiões a circularem “a toda a hora” pelas artérias da localidade para transportarem a pedra lioz para “todo o país”.
“Nessa altura, Pero Pinheiro era uma terra de riqueza e abundância. Chegámos a ter sete agências bancárias (…) Numa terra tão pequena, é obra!”, assinala.
O morador recorda ainda as “várias crises” na indústria e as consequentes falências de empresas emblemáticas, como a Pardal Monteiro, mas enaltece a resiliência de outras tantas que conseguiram “suportar as diversas crises” e “sobreviveram até hoje”.
Alexandre Ferreira diz que Pero Pinheiro ainda é uma espécie de oásis de tranquilidade, sendo uma localidade de hábitos e cultura rurais, “onde ainda há segurança” e se “pode viver em paz”, ao contrário de algumas freguesias urbanas do concelho de Sintra.
Com uma comunidade “cada vez maior de estrangeiros”, Pero Pinheiro “soube integrar de forma harmoniosa as pessoas que vêm de fora para trabalhar” nas pedreiras e na indústria que ainda resta. Mas o mecânico aproveita para fazer um reparo ao poder autárquico: “Não houve o cuidado de criar mais zonas de estacionamento para quem vive e trabalha aqui. A zona tem tantos descampados que poderiam ser transformados em parques de estacionamento, mas que continuam sem qualquer utilidade para a população”, anota.
Canteiro africano que sente “orgulho” no seu trabalho
O canteiro Moussine, proveniente do norte de África, está rodeado de uma nuvem de pó, juntamente com mais três colegas. Para evitar problemas respiratórios, usa uma máscara futurista. Está a polir várias peças de pedra lioz, manejando a rebarbadora com mestria e de forma mecânica.
Interrompe o seu trabalho para contar que está em Portugal há alguns anos e que já trabalha nesta “arte” há três. No início, confidencia que “não foi fácil”, mas que hoje sente “muito orgulho” em desempenhar uma “função muito nobre” e que “já poucos aceitam fazer” pela dureza e as muitas horas passadas envoltos em anéis baços de poeira.
A empresa da águia vigilante
Quem circular na estrada que liga os concelhos de Sintra e Mafra, salta-lhe facilmente à vista uma imponente águia de cerca de 1,5 metros que faz a “vigilância” da empresa Granitos e Mármores Jerónimos LDA, em Pero Pinheiro.
Joaquim Luís, genro do dono da empresa, explica que a águia “é idêntica” às duas que estão à porta do Jardim Zoológico de Lisboa, feitas com a pedra e a maestria dos canteiros da sua empresa.
O mestre canteiro revela que aprendeu a arte com o sogro, mas que o saber já “vem de várias gerações” de profissionais do setor, uma vez que a empresa já labora “há várias décadas”, sempre no mesmo local.
Segundo Joaquim Luís, o setor está hoje a viver “as incertezas provocadas pela guerra (Irão)”, que fez disparar os preços dos combustíveis e consequentes “aumentos generalizados” dos custos de produção. Para além de trabalhar com pedra lioz, que é de Sintra, esta companhia, de reconhecidos pergaminhos no setor, transforma, também, a pedra vinda de outros mercados internacionais, exportando-a depois para outros países, mas os contentores “encareceram de forma abismal”, tornando toda a operação “muito mais difícil”.
Apesar das “incertezas” sobre o futuro, o empresário garante que a pedra lioz proveniente das entranhas da zona de Sintra “é muito superior” a outras mais “conhecidas no mundo”, como o mármore de Carrara, da Itália, que perde sem apelo nem agravo para a “qualidade da pedra lioz”, tanto em dureza como em resistência e durabilidade. “O mármore feito de pedra lioz é muito superior ao de Carrara, que mancha e parte facilmente, para além de ser muito mais barato”, pelo que o setor da construção “mais conhecedor” deste mercado, nomeadamente o nacional, opta por usar a pedra lioz trabalhada pelos mestres de Pero Pinheiro.
A Jerónimo debate-se hoje com um problema recorrente no setor. As novas gerações fogem como diabo da cruz de um “trabalho duro e pesado”, provocando uma recorrente falta de mão de obra. Joaquim Luís tem levado a sua empresa para frente com a ajuda de mais três trabalhadores, mas já está a “tentar convencer” o filho a seguir as pisadas do avô e do pai, prosseguindo com um negócio que está há décadas na família.
Ganhar escala para conquistar terreno aos italianos
Nuno Almeida é sócio-gerente de uma empresa que trabalha exclusivamente com o mercado internacional. Até ao final do ano, toda a produção da B.S. Bremsen, sedeada em Pero Pinheiro, já tem destino: o mercado de construção de França e de outros países europeus.
O gestor afiança que o setor tem conhecido “várias oscilações” ao longo dos últimos anos, estando atualmente mergulhado “em mais um ciclo de incerteza”, por conta dos conflitos internacionais e da subida generalizada dos preços das operações de transportes. “Até ao final do ano, temos a produção negociada com vários clientes estrangeiros. Depois disso, ninguém sabe ao certo como irá reagir o mercado”, reconhece.
Para traçar o retrato do setor, o empresário afiança que a pedra lioz “compete de igual para igual” com o mármore de Carrara, sendo, aliás, “de superior qualidade”, mas as empresas extratoras e transformadoras da zona de Sintra ficam a perder no que toca “à promoção e ao marketing”, mas também ao design, desenvolvido “há muitos anos pelos empresários italianos” por todo o mundo. “Os italianos são mestres da promoção dos seus produtos, fazendo passar uma mensagem de sofisticação e de qualidade. Há muito que perceberem que a união do setor faria ganhar presença no mundo e escala global”. Na visão do empresário, falta um pouco desse espírito coletivista aos líderes portugueses desta área de negócio.
“O nosso setor ainda não percebeu que é preciso ganhar escala para poder competir com os outros nos mesmos patamares. De uma maneira geral, as empresas, muitas delas familiares, trabalham de forma isolada e sem se associarem num só bloco. Com estes comportamentos individualistas, não conseguem competir no mercado global”, aponta.
Nuno Almeida revela que a sua companhia está a tentar procurar novos mercados. Tem em curso a construção de uma campanha de internacionalização, com recurso à promoção nos meios digitais. É objetivo dar a conhecer, de forma mais concertada e focada no potencial das pedras trabalhadas na B.S. Bremsen, a novos mercados, sinalizando a “qualidade superior” dos mármores transformados em Pero Pinheiro.
Dado o esgotamento das pedreiras da região de Sintra, na segunda metade do século XX, a transformação da pedra ganhou espaço à extração, cada vez mais limitada. Com esta “secagem” da matéria prima local, a indústria recorreu à utilização pedra de todo o país, em particular mármore de Estremoz, que depois de transformada será vendida a nível nacional e internacional. Prova desta internacionalização, é de salientar que as estrelas do passeio de Hollywood, nos EUA, são feitas com mármores trabalhados por uma empresa de Pero Pinheiro.
A pedra lioz da região tem sido utilizado em elementos estruturais, mas, também, dada a sua qualidade, em múltiplas estatuárias que ornamentam inúmeras igrejas de todo o país, representando um símbolo de qualidade ímpar retirada das entranhas das pedreiras da Serra de Sintra e transformadas pelas empresas de Pero Pinheiro.
