Impacto do Rock in Rio na zona oriental de Loures

O Município de Loures revela que vai transformar o Parque Papa Francisco “no grande palco” do concelho, tendo como ponto de partida a realização de concertos de grandes nomes da música eletrónica internacional. Na altura do Rock in Rio, fomos conhecer as opiniões dos comerciantes e moradores de toda a zona Oriental do concelho de Loures sobre o embate deste megaevento nas suas vidas e nos seus negócios.

O Rock in Rio continua a ser o festival que reúne mais público em Portugal. A edição de 2026 do festival arrancou com a “25% portuguesa” Katy Perry como cabeça de cartaz, que partilhou um vídeo a passear por Lisboa e a comer um pastel de nata, e Pedro Sampaio, o Dj e cantor do “Cavalinho”, que pôs 90 mil pessoas a dançar os seus sucessos. Na edição deste ano, atuaram nomes como Rod Stewart, Linkin Park ou Cindi Lauper, reunindo milhares de fãs em torno destas estrelas da música internacional.

Realizado em dois fins de semana, entre os dias 20 e 28 de junho, este é um festival para “a família”, o mais mainstream dos grandes festivais realizados na zona de Lisboa, mas é também aquele que continua a movimentar mais festivaleiros, contando com milhares de pessoas vindas de todos os pontos do país para vivenciarem “a experiência” de terem “estado lá”.

Nos dois primeiros dias do megaevento, os bilhetes esgotaram rapidamente e o Parque Papa Francisco transformou-se no local onde perto de 100 mil pessoas, em cada dia, celebraram coletivamente a magia e a força transformadora da música.

Parque Papa Francisco será o “grande palco” de Loures

À margem da realização do Rock in Rio, a Câmara Municipal de Loures divulgou que tem o objetivo de trazer uma nova dinâmica para o espaço. Através de parcerias com promotoras de espetáculos de referência, como a Sodade ou a Desert Rain, a autarquia revela que quer converter o Parque Papa Francisco numa “grande praça de eventos musicais internacionais”, assume Sónia Paixão, vice-presidente da CML ao “OL”.

E concretiza: “De julho até início de outubro, teremos um número muito significativo de grandes concertos da música eletrónica internacional” – como David Guetta, que atua no dia 2 de agosto, Carl Cox, dia 5 de setembro, Black Coffee, 27 de setembro, Hugel, dia 19 de setembro, sendo Beele o artista que inaugurou este ciclo de concertos, dia 5 de julho.

Para a autarca, estes concertos de nomes maiores da música eletrónica internacional atrairão “milhares de pessoas” até ao Parque Papa Francisco para desfrutarem “de uma verdadeira experiência”, que corresponda às expectativas de as pessoas “poderem experienciar novas sensações”.

“Este é um novo recinto e que tem uma localização de excelência”, sendo objetivo do Município que o público dos concertos tome conhecimento de que há um novo recinto à sua disposição. Um novo espaço, plenamente integrado no meio ambiente, e onde as pessoas poderão divertir-se em comunhão com a natureza e ao som dos seus artistas prediletos.

Inaugurado há sensivelmente um ano, o Parque Papa Francisco tem uma “aura” especial, ou não fosse o local onde o Papa argentino pregou a sua mensagem. Mas as mais de quinhentas árvores plantadas pela CML estão ainda em fase “embrionária” e, na verdade, o equipamento não terá ainda as áreas sombreadas pretendidas.

Sónia Paixão reconhece que o Parque está a fazer “o seu caminho” de crescimento, mas que é expectável que venha a ser “um dos mais bonitos e atrativos” da Grande Lisboa e um dos locais mais emblemáticos de Loures. Até porque o objetivo maior da CML “foi devolver aquela área à população”.

São João da Talha

Júlio Castro, gerente do restaurante-cervejaria “O Caracol”, em São João da Talha, anda num corrupio a preparar a sala para o almoço. Esta casa de boa comida tradicional portuguesa é recomendada por alguns taxistas locais como “o melhor sítio para fazer uma refeição caseira” e onde se podem degustar “umas sardinhas assadas à maneira” ou petiscar uns caracóis acompanhados de uma imperial.

Júlio Castro é um profissional à antiga. Irmão de 9, revela que começou a trabalhar na restauração aos 12 anos para “levar dinheiro para casa, porque havia muitas bocas para alimentar”.  Dono e senhor de uma voz possante, mas simpático e diligente, afirma que os festivaleiros “raramente consumem alguma coisa” no seu espaço de restauração. “Só nos apercebemos do impacto de festival pela confusão no trânsito na estada nacional e do estacionamento caótico. Poucos são aqueles que vêm para esta zona e menos ainda os que se sentam nas nossas mesas”, admite, contrariado com a falta de clientela proveniente do Rock In Rio.

“As pessoas preferem gastar o dinheiro no recinto, onde é tudo bem mais caro, do que fazer uma boa refeição à mesa. Vou dar o exemplo da minha filha, que já foi ao festival. Não se importa de pagar 80 euros por um bilhete, é sempre o mesmo que paga (o pai), mas é capaz de dizer que dar 2 euros por uma sopa é caro…”, afiança, bem-humorado.

Bobadela

Zara Branco é proprietária de uma pequena pastelaria numa das pracetas da Bobadela, fronteira à estada nacional. À porta do local estão quatro septuagenários a conversar sobre as incidências do jogo do Mundial de Futebol em que Portugal impôs uma pesada derrota à seleção do Uzbequistão, por 5 bolas a 0.

A comerciante revela que, nos dias do Rock in Rio, o movimento de carros e de pessoas nas ruas da vila “aumenta consideravelmente”, mas o seu negócio continua a ser frequentado “pelos clientes do bairro”, não havendo um acréscimo de vendas “que possa ser destacado”. “Vendemos mais alguns sumos, refrigerantes e cervejas, mas não é nada por aí além”.

“As pessoas que vêm o festival fazem as suas compras nas grandes cadeias de supermercados, porque fica mais em conta e preferem gastar o dinheiro no recinto. Estão no seu direito”, assevera, anotando, no entanto, que o evento “não deixa dormir ninguém”, porque “trás a música” do recinto e “não deixa os moradores descansar”. “Tenho um bebé e é complicado, mas é aquilo que é”, diz, resignada.

Sacavém

O “OL” foi conhecer o “outro lado” do evento, do impacto da avalanche de pessoas que vieram ao evento nos territórios de Loures que confinam com o festival. Com opiniões divididas, os comerciantes e moradores mostram posições contraditórias, entre a indiferença, as críticas à usurpação de espaço público da parte dos festivaleiros, mas também uma minoria que regozija com o acréscimo da faturação durante o certame.

Gonçalo Rosado, proprietário do restaurante homónimo situado na baixa de Sacavém, não se mostra muito interessado em partilhar a sua opinião sobre as incidências do evento e do seu real impacto no setor do comércio local.

A custo, admite que o evento “trás muita gente” à cidade, mas “sem qualquer benefício para estes negócios”. “As pessoas passam por aqui, mas, em termos de consumos, pouco se nota a sua presença. Poderá haver um ou outro que almoce no meu restaurante, mas não notamos grande diferença relativamente aos outros dias”.

Moscavide

A opinião Alberto Carvalho está nos antípodas do ponto de vista do empresário de Sacavém. Dono de um restaurante-cafetaria em Moscavide, que tem uma esplanada espaçosa e confortável, assegura que os dias do festival tem sempre “grandes enchentes” de “gente que vem de todo lado” para fazer uma refeição “descontraída e de qualidade”, no restaurante “Mimoso”, que serve pescado fresco e outras iguarias que “fazem as delícias dos festivaleiros”.

Para o empresário, a realização deste evento “trás sempre muito movimento à vila” e “muitos clientes que almoçam por cá antes de irem para os concertos e as diversões que há no Rock in Rio”.

Uns metros mais à frente, Augusto Araújo permanece à porta da sua pastelaria-snack-bar, espreitando para o movimento que circula em Moscavide, mas que passa ao lado do seu negócio.

Sem grandes delongas, o proprietário revela que não se apercebeu da realização do Rock in Rio. “O impacto é quase nulo. Há muitas pessoas que deixam aqui os carros e vemos muitos miúdos a pé pelas ruas de Moscavide antes de irem para lá, mas não acrescentam nada ao negócio. Poderá passar algum que vem beber uma água, mas é só”.

Rithesh Misley e o pai são donos de duas lojas de frutas/minimercado na vila de Moscavide. O comerciante indostânico afirma que o Rock in Rio “é muito positivo” para aumentar as vendas dos seus produtos. Revela que os festivaleiros “compram muitas bebidas e algumas frutas” para levarem para o recinto, o que acaba por refletir-se no saldo dos seus negócios.

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