Loures é pioneiro na distribuição de pulseiras que detetam “droga da violação”

A Câmara de Loures vai distribuir 20 mil pulseiras que permitem detetar a presença de substâncias usadas na adulteração de bebidas, nomeadamente a GHB, conhecida como a “droga da violação”. Ao “OL”, o investigador responsável por esta inovação sustenta que “não vai salvar o mundo”, mas “vai salvar o mundo” dos jovens que frequentam a noite. 

A Câmara Municipal de Loures apresentou uma nova campanha de prevenção e segurança em contextos de diversão noturna, que inclui a distribuição de 20 mil pulseiras que permitem detetar a presença de substâncias utilizadas na adulteração de bebidas.

A iniciativa pioneira em Portugal, desenvolvida em articulação com a Polícia de Segurança Pública e com a Desert Rain, pretende disponibilizar uma ferramenta adicional de prevenção e reforça a informação sobre comportamentos de autoproteção e a importância de comunicar às autoridades qualquer situação suspeita.

As pulseiras Celentis, adquiridas pela autarquia e pela Desert Rain num investimento total de 22 mil euros, constituem uma medida complementar de segurança e não substituem os restantes comportamentos de autoproteção nem o contacto com as autoridades perante uma situação de risco ou suspeita, lembra o Município.

A utilização é simples e pode ser feita em bebidas com ou sem álcool: basta colocar uma gota da bebida na zona reativa da pulseira e, em segundos, uma eventual mudança de cor alerta para a presença de determinadas substâncias. Esta pulseira, em concreto, vai permitir detetar GHB.

A distribuição arranca já no dia 5 de setembro, no concerto de Carl Cox, no Parque Papa Francisco, em Loures, estando prevista a disponibilização de cerca de cinco mil pulseiras por evento, ao longo do ano de 2026. A distribuição será assegurada por equipas preparadas para explicar o funcionamento das pulseiras e os cuidados a ter na sua utilização.

A campanha estará igualmente presente no recinto através de diferentes suportes de sensibilização, com informação sobre a utilização das pulseiras, comportamentos de prevenção e acesso, através de QR Code, a informação mais detalhada sobre o funcionamento e as condições de utilização do dispositivo.

Na cerimónia de lançamento da iniciativa, realizada hoje em Loures, o presidente da Câmara Municipal de Loures, Ricardo Leão, explicou que a iniciativa resulta de uma parceria entre a autarquia, a Polícia de Segurança Pública e a promotora Desert Rain, tendo início no sábado, com a distribuição das primeiras cinco mil pulseiras, durante o concerto de Carl Cox, no Parque Papa Francisco.

Dispositivo de “autoproteção”

Segundo explicação do comandante da PSP de Lisboa, o superintendente-chefe Luís Elias – a PSP foi mentora e parceira da iniciativa –, as pulseiras permitem testar bebidas com ou sem álcool através da colocação de uma gota numa das zonas reativas, sendo uma mudança de cor que alerta para a possível presença de GHB.

O responsável explicou que a PSP está na linha frente na promoção de “comportamentos de autoproteção da população”, salientando que o concerto de Carl Cox será “o primeiro grande evento onde esta solução vai ser testada”.

Depois de agradecer ao presidente da Câmara de Loures, que aceitou “sem hesitar” fazer o teste no seu concelho, Luís Elias salientou que é objetivo alargar a utilização destas pulseiras “a outros concelhos do país”, mas também à animação noturna da capital e de todos os outros locais que mostrem interesse em aderir a esta iniciativa de “autoproteção” dos frequentadores da noite, de bares, discotecas e concertos.

Segurança para todos

Ricardo Leão apontou que esta “é uma iniciativa pioneira no país”, e que está convicto “de que vai ser replicada por outras câmaras”, sublinhou o autarca, destacando que esta medida “se enquadra da filosofia do Município de Loures”, de transformar o concelho “num novo centro” de grandes eventos musicais.

O autarca reconheceu que “Loures estava fora do mapa dos grandes eventos”. Com a criação do Parque Papa Francisco, assume hoje uma nova centralidade, passando a estar na rota dos “grandes acontecimentos musicais” da Grande Lisboa, reiterou.

Na mesma medida, o edil de Loures salientou que, para um Município que põe a segurança dos seus munícipes “em primeiro lugar”, esta iniciativa casa na perfeição com a sua filosofia. “Para um autarca, não há maior desiderato do que ter a sua população segura”, sublinhou, reiterando que as pulseiras “dão segurança aos pais e avós” dos frequentadores dos acontecimentos de diversão noturna.

A distribuição das pulseiras representa um investimento total de 22 mil euros, repartidos de igual forma pela Câmara de Loures e pela Desert Rain.

Ricardo Leão destacou “a importância e a repercussão que pode vir a ter no resto do país e o sentimento de segurança que todos passamos a ter naquilo que é um ato de prevenção”.

Ricardo Leão explicou que, no dia do concerto, vai estar um técnico da Câmara à porta do recinto a fazer a entrega das pulseiras a quem, obviamente, as quiser colocar, mas avança que está em equação que, depois de avaliados os resultados desta primeira fase da campanha, que decorrerá durante o resto deste ano, o Município possa voltar a distribuir pulseiras noutras iniciativas durante 2027.

Investigador diz que pulseiras “são escudo de proteção”

Estas pulseiras foram desenvolvidas em 2025 pelo investigador Carlos Lodeiro, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (NOVA FCT), em conjunto com a Universidade de Valência e a empresa espanhola Celentis.

Em declarações ao “OL”, o professor e investigador explicou que as pulseiras detetam a presença da substância GHB, conhecida popularmente como “droga G ou droga da violação”, uma vez que o seu consumo pode originar sintomas como perda de coordenação, tonturas, amnésia e perda de consciência.

Carlos Lodeiro reforçou que esta tecnologia deteta apenas a GHB, mas que a sua equipa de investigação está já a trabalhar numa nova linha de investigação dedicada a este tipo de sensores. Em colaboração com a PSP e a Polícia Judiciária, que forneceram “todo um leque de material”, os investigadores da NOVA FCT vão poder estender a deteção de outras drogas para além da GHB.

O investigador relevou que o simples uso destas pulseiras já funciona como um “método preventivo”, pois indicam que o utilizador “já está em alerta” face aos perigos circundantes, evitando ser interpelado por alguém com más intenções.

O projeto, que já foi implementado nas zonas de Alicante e de Valência, Espanha, há cerca de 1 ano, fez com que o “número de casos desaparecesse quase por completo”, uma vez que os malfeitores ficam a descoberto e são facilmente identificáveis pelas autoridades.

Para Carlos Lodeiro, as pulseiras funcionam como um “escudo protetor” que transformam a estatística dos ataques a uma ínfima parte, a “números perfeitamente residuais”.

O investigador sublinha que esta investigação científica, “que demorou anos a ser feita”, não teve o intuito de “salvar o mundo”, mas sim a “salvar o mundo dessa rapariga ou rapaz” – em caso de ingestão de alguma bebida adulterada fica com traumas para a vida –, sendo o uso da pulseira um seguro para evitar esse tipo de situações de risco.

Replicar o uso a todo o país

A Laborespirit, a empresa que comercializa as pulseiras, está sediada no parque industrial do Tojal, em Loures. Márcio Domingues, diretor da empresa, revela que o facto de ter sido o concelho de Loures o primeiro a aderir a este projeto de prevenção e segurança “foi uma feliz coincidência”, até porque o próprio Ricardo Leão reconheceu que desconhecia a existência da companhia no território.

Ainda assim, o responsável enalteceu o “pioneirismo” do “seu” Município, esperando que o “exemplo de Loures” seja replicado a outros concelhos.

Márcio Domingues revela que o preço das pulseiras é acessível — um pacote de 10 fica a 55 euros –, mas salienta que os preços variam consoante as contratualizações: “em grandes quantidades, os preços baixam consideravelmente”.

O empresário sustenta que a companhia está a comercializar, a nível individual, uma pulseira que “deteta mais tipos de drogas”, através da utilização de dois sensores, ao contrário da adquirida pelo Município de Loures.

Na perspetiva do responsável, o arranque do projeto em Loures poderá ser o “tiro de partida” para o alargamento da iniciativa a mais pessoas por todo o país.

Márcio Domingues, pai de uma adolescente, reforça que estas pulseiras “são, de facto, uma mais valia e, enquanto pai, representam um descanso sempre que a minha filha vai para as discotecas à noite”.

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