Amadora vai ter centro de comunicações permanentes para manter a população conectada em situações extremas. A proposta, nascida no âmbito do Orçamento Participativo (OP) 2027, partiu de um engenheiro de telecomunicações que vive na cidade desde 2008. Tem como propósito manter as comunicações a salvo no caso da ocorrência de calamidades públicas. O presidente da CMA, Vítor Ferreira, sustenta que o OP reflete “os fundamentos de uma democracia plena” no território.
A Câmara Municipal da Amadora anunciou no Auditório Rogério Rodrigues (Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos) as propostas vencedoras do Orçamento Participativo 2027 da Amadora, com a cerimónia de entrega de diplomas aos proponentes das mesmas.
Em declarações ao “Olhares de Lisboa” no local, o presidente da Câmara, Vítor Ferreira, salienta que esta iniciativa tem como “principal propósito” incentivar a participação dos cidadãos na vida pública, contribuído, grosso modo, “nas decisões do Município” na governação do território.
O autarca afiança que é também objetivo “aumentar a transparência e a eficiência da tomada de decisão”, exigir ao poder político um maior cuidado na prestação de informação às populações quanto aos gastos públicos, mas também “gerar maior proximidade e confiança entre poder político e população, e incrementar a participação democrática dos cidadãos”.
Para Vítor Ferreira, os orçamentos participativos traduzem o melhor que o poder autárquico tem para oferecer aos seus cidadãos: “representam os fundamentos de uma democracia plena na governação do concelho da Amadora”, na justa medida em que motivam “uma cidadania que cresce de forma mais consistente e que apresenta soluções práticas para melhorar o dia a dia da cidade”.
Nesta edição, cujo tema foi a “Intervenção no Espaço Público”, foram 6 propostas a votação. As propostas vencedoras foram as mais votadas por ordem sequencial que em conjunto tenham um custo estimado que não ultrapasse o orçamento de 500 mil euros, integrando as Grandes Opções do Plano 2027 / Anos Seguintes, e o prazo de execução previsto é 2027 e 2028.
O presidente do Município revela, no entanto, que a edição deste ano “abriu uma exceção”, incluído uma das seis propostas inicialmente votadas que tinha ficado de fora por ultrapassar o limite orçamental. “Entendemos que deveríamos abrir uma exceção porque acreditamos que a mesma vai contribuir para melhorar a cidade”, justifica o autarca, revelando que esta inclusão inesperada causou a passagem do valor limite do orçamento “em 15 mil euros”.
Em intervenção na cerimónia, Vítor Ferreira reiterou a mensagem subjacente à sua linha de governação e ao próprio Orçamento Participativo. “A nossa cidade vai continuar a escutar os cidadãos, porque uma cidade que escuta é uma cidade em construção”, concluiu.
Amadora conectada por satélite
A proposta que ficou em primeiro lugar está diretamente relacionada com a antecipação dos problemas de comunicações sentidos no último ano por conta do “comboio de tempestades”, o apagão e demais situações extremas que assolaram o país. Trata-se do projeto “Amadora conectada em situações extremas”, apresentada por André Nunes, engenheiro de telecomunicações que vive na Amadora desde 2008.
O cidadão fez a proposta de o Município criar um “centro de comunicações”, servido por telefones satélites, onde a população possa aceder livremente para poder contactar com familiares e entes queridos em caso de situações extremas.
Necessidade aguçou engenho
André Nunes, natural de Pedrogão Grande, explica ao “OL” que a ideia lhe ocorreu depois de se aperceber que, nas situações mais extremas”, as comunicações “são a primeira coisa a cair”. E reforça que, aquando da tempestade Kristin — em que grande parte das comunicações na cidade (e no país) sofreu “graves complicações” –, ficou sem notícias dos pais durante uma semana, tendo de recorrer à ajuda “de pessoas Coimbra, que fica a 60 quilómetros, que fossem confirmar se estava tudo bem com eles”.
“A ideia surgiu por uma necessidade de criar soluções de resiliência que ajudassem as populações a não perderem o contacto entre si, em pontos diferentes do país”, sustenta.
Por outro lado, por ser natural de Pedrogão, onde, em 2017, o inferno se declarou na terra, ceifando a vida a 66 pessoas, o engenheiro deparou-se com “o drama” de ter os seus familiares incontactáveis durante vários dias. André Nunes destaca que todas estas situações de calamidade pública o fizeram ver a necessidade de “fazer algo” para “ajudar a mitigar” as desconexões reais entre as pessoas.
E enaltece a aprovação da sua ideia pela Câmara, uma vez que “vai tornar a cidade mais resiliente”, antecipando-se na oferta de soluções concretas para atenuar “o sofrimento” de quem “está longe dos seus seres queridos”.
O centro de comunicações vai ser implementado em duas escolas da Amadora, mas o Município ainda está a avaliar em quais dos estabelecimentos de ensino irá instalar os satélites que permitirão à população estar sempre conectada.




