Presidente do IHRU alega ter sido mal interpretado nas afirmações sobre os jovens não estarem prontos para “o sacrifício”

Benjamim Pereira, presidente do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), reconhece “não ter sido feliz” nas declarações sobre as dificuldades dos jovens no acesso à habitação. O presidente do IHRU diz, porém, que fez um “paralelismo” com as carências sentidas pelas gerações mais velhas, ilustrando as dificuldades geracionais da sua própria família. O ministro da Habitação, Miguel Pinto Luz, passa uma esponja na polémica e assume que Benjamim Pereira vai continuar no cargo. 

Na quinta-feira, o presidente do IHRU fez uma declaração polémica sobre disponibilidade dos jovens para o “sacrifício” de conseguirem ter uma habitação. A polémica estalou depois de Benjamim Pereira ter dito não saber “se a sociedade atual está disponível para o nível de sacrifício” da anterior, recordando que os seus próprios avós emigraram “para poderem ter uma casa”, afirmou, acrescentando: “só estou a dizer que os meus avós emigraram para o Brasil e para a Argentina para poderem ter uma casa. O meu pai emigrou durante 20 anos, sacrificou a vida”.

As suas palavras não caíram nada bem nos movimentos de protesto, nos partidos da oposição e na generalidade dos líderes de opinião. Foi da opinião geral que as declarações do presidente do IHRU mostraram “falta da empatia” ou foram “infelizes”, como foi referido pelo próprio ministro da Habitação, Miguel Pinto Luz.

Hoje, dia 23 de outubro, Benjamim Pereira enviou uma nota às redações a esclarecer o sucedido, negando ter dito aquelas palavras. “Na sequência das minhas declarações de ontem à imprensa, aquando do evento da Gaiurb, ‘Desenhar o Território’, e face à dimensão mediática que alcançaram, urge prestar um esclarecimento sobre as mesmas. Em momento algum disse que os jovens não tinham dificuldades ou que não estavam a sofrer consequências com a carência de habitação. O que fiz foi um paralelismo com o passado, evidenciando através de um exemplo pessoal, que a habitação sempre foi um problema neste país e que os portugueses sempre valorizaram e se sacrificaram muito para poderem ter uma habitação própria. Quando digo que se sacrificaram, é com tristeza que o constato, e não com algum tipo de saudosismo. Como é evidente, não se pode exigir aos jovens de hoje os sacrifícios de outrora, o que significaria que nada tínhamos conseguido melhorar em mais de 50 anos de democracia”.

Dizendo-se mal-interpretado, o presidente do IHRU lembra o seu manifesto apoio aos protestos e a “compreensão” pelas exigências dos manifestantes. “Não foi também referido, nas inúmeras notícias, o respeito que referi ter pelo direito de manifestação e a compreensão que expressei pelas exigências dos manifestantes. Muito menos aludi, em momento algum, à emigração. Muito pelo contrário, não tivesse eu sofrido na pele a ausência dos familiares, exatamente nesse contexto de exigência que os forçou a sair. Os nossos jovens fazem-nos muita falta, são desejados e têm sido permanentemente convidados a ficar, assim como outros que outrora saíram têm sido convidados a regressar”, sublinha.

Segundo Benjamim Pereira, o Governo “tem vindo a tomar medidas precisamente no sentido de os apoiar, na habitação, mas não só, através do IRS Jovem, das garantias públicas, da isenção de IMT e do Imposto de Selo, diga-se, aliás, com enorme sucesso”.

“A instituição que lidero tem feito um esforço gigantesco para lutar precisamente contra este flagelo da carência habitacional, e os seus trabalhadores têm sido inexcedíveis. Prova disso foi a superação das metas do PRR, onde atingimos os 31.700 fogos, permitindo um integral aproveitamento dos fundos comunitários para o nosso país”.

Para o ainda líder do IHRU, “aquilo que nos move é a certeza de que só unidos, jovens e menos jovens, Estado e sociedade civil, municípios e empresas, conseguiremos debelar este flagelo que nos atinge”, assegura, admitindo que, “embora sem qualquer intenção, aceito não ter sido feliz em todas as expressões que utilizei, mas acredito no que estou a fazer, acredito no caminho delineado pela tutela e dou todos os dias o meu melhor, colocando ao serviço dos portugueses a minha experiência profissional e política adquirida ao longo de anos de trabalho e de serviço público”.

Miguel Pinto Luz não demite presidente do IHRU

O ministro da Habitação, Miguel Pinto Luz, anunciou esta sexta-feira que vai manter em funções o presidente do Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU). Em declarações aos jornalistas a partir da Guarda, o ministro disse que os esclarecimentos dados posteriormente por Benjamim Pereira foram “suficientes”, estando assim “reunidas as condições para prosseguir o trabalho que o IHRU tem de fazer”.

Pinto Luz defendeu ainda que Benjamim Pereira se “retratou”. “As declarações foram infelizes e não traduzem a posição do atual Governo. Queremos reter talento e reter os jovens e temos noção do esforço coletivo que toda uma geração está a fazer para aceder à habitação”, salientou o governante.

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