Robôs humanoides batem à porta para entrarem em Portugal

Os robôs com forma humana vão chegar ao país. O administrador da SData AI esclarece que os robôs humanoides não irão substituir pessoas, mas sim desempenhar funções repetitivas, perigosas ou colmatar falta de pessoal em algumas áreas. O ministro Carlos Abreu Amorim saudou a chegada desta tecnologia a Portugal, mas lembra a importância de “inovar sem desumanizar” e da regulação da IA.  

Em apresentação realizada em Lisboa no dia 6 de outubro, robôs humanoides foram recebidos por perto de uma centena de pessoas num conhecido bar/restaurante nas margens do Tejo. Os modelos apresentados foram treinados para falar o português europeu, respondem a perguntas, executam tarefas e ainda dão um passo de dança. No entanto, ainda não lhes é possível ir buscar uma cerveja ao frigorífico, como brincou Paulo Silva, administrador executivo da SDdata AI, responsável por trazer os robôs da Agibot para o território português.

Paulo Silva destacou a nova dimensão da IA física, que pode desempenhar múltiplas funções. “Estes equipamentos já conseguem faze 80% das tarefas que um humano pode fazer, mas ainda são um pouco lentos”, explica, admitindo que não há limitação mecânica nem física, mas que isso acontece porque os modelos ainda não estão suficientemente ricos em termos de dados para um uso mais fluído. E essa evolução vai acontecer nos próximos dois a três anos, o que permite que os mesmos equipamentos consigam desempenhar as funções de forma mais rápida sem alteração de hardware.

Segundo o administrador, os robôs humanoides não foram criados para substituir as pessoas, mas dar opções sem que tenham de fazer tarefas repetitivas, trabalhar em áreas de risco, ou para colmatar a falta de pessoas em algumas áreas. “É uma nova plataforma de automação, não só robótica industrial, mas móvel, para automatizar os nossos processos”, defende, adiantando que os robots vão criar espaço para novas funções.

Por isso, Paulo Silva deixa também o desafio à plateia do Beyond AI, para pensarem como podem integrar os robots no seu negócio, num cenário de médio prazo.

Ministro cita encíclica papal

Na sua intervenção, o ministro dos Assuntos Parlamentares, Carlos Abreu Amorim, defendeu que “a Inteligência Artificial Incorporada não é o fim da ação humana. É um teste à nossa liderança”. E apontou para um cenário social em que importará reforçar “uma nova relação entre tecnologia, democracia e pessoas”, lembrando a importância de “inovar sem desumanizar”, usando a IA para simplificar o Estado, reduzir a burocracia e melhorar a vida dos cidadãos.

Para o governante, os sistemas artificiais de inteligência “imitam funções, superam-nos no cálculo e na velocidade, mas não sentem, não amadurecem em relações, não têm uma consciência moral sobre o bem e o mal, nem assumem o peso das consequências”, sublinhou.

Citando a primeira encíclica do Papa Leão XIV, intitulada “Magnifica humanitas”, o ministro lembra que o Papa norte-americano “avisa-nos que ‘não podemos considerar a IA moralmente neutra’”. Pelo contrário, disse, “ela confronta-nos com o risco de delegarmos a nossa própria responsabilidade, construindo uma nova Torre de Babel marcada pela autossuficiência que desintegra, quando o que a Humanidade precisa é de comunhão. É esse o cerne da resposta institucional e, consequentemente, da regulação: garantir que não seremos arquitetos da nossa própria irrelevância, mas sim promotores da dignidade inviolável que nenhum algoritmo pode replicar. O avanço tecnológico exige, mais do que nunca, um discernimento sobre a visão antropológica que o orienta, assegurando que cada inovação é um passo em frente rumo à democracia, à liberdade e à verdadeira justiça social”.

Apesar de não se mostrar antagonista da IA e de reconhecer que é um sinal dos novos tempos, Carlos Abreu Amorim alerta que a tecnologia muda, mas “a nossa responsabilidade permanece: garantir que está ao serviço das pessoas e da democracia”.

E é aqui que está “a responsabilidade acrescida do Parlamento, do Governo, dos decisores políticos: a salvaguarda da democracia quando esta irá ser mais precisa do que nunca. Os decisores políticos, as instituições, não devem (nem conseguiriam) parar o vento como as mãos, mas também não podem ser meros espetadores deslumbrados, retirarem-se do debate ou tornarem-se atores impotentes”.

“As instituições democráticas têm a obrigação de agir como o filtro deliberativo e ético desta revolução. O tempo da democracia não mimetiza, nem deve mimetizar, o tempo dos nossos tempos com a velocidade da inovação tecnológica, mas tem o dever de a regular e zelar com maior premência pelo seu único fim: as pessoas” concluiu.

Futuros “operários” na indústria

O potencial de crescimento da robótica, com o objetivo de chegar a 1 milhão de robots até 2030, foi destacado por William Shi, presidente da área da Europa da Agibot. A empresa já fabricou mais de 15 mil equipamentos, tem modelos que se adaptam a várias funcionalidades e este ano os seus robots conquistaram vários prémios nas Olimpíadas da Robótica, que decorreram na China.

O plano da Agibot passa por, em 2026, implementar mais de 1.000 robots em várias áreas na China, nomeadamente em sete cenários diferentes, desde o carregamento e descarregamento, handling, seleção de produtos, patrulhamento de segurança e limpeza. “Todos estes cenários já são comercializados na China e noutros países”, afirma William Shi, acrescentando que, em Portugal, “acredito que há muitas oportunidades nestes cenários”.

A Agibot já tem três parceiros na Europa, incluindo o Minth Group para fabrico, integração industrial e distribuição europeia e a parceria com a SDdata AI garante em Portugal a distribuição destes robots, nas várias linhas de produtos.

Oportunidade para as PME

Pedro Reis, vice-presidente do conselho estratégico da Cimpor Global e ex-ministro da Economia, mostrou entusiamo por estarmos hoje a viver o futuro. “Já não há dúvidas de que o futuro da robótica está aí”, afirma, dizendo que a dúvida é o ritmo e profundidade de implementação na economia, “e a capacidade de imersão nas PME”.

Neste quadro, Pedro Reis deixou uma nota de otimismo, admitindo que esta tecnologia tem o ADN das PME e que se adapta a ambientes menos estruturados. “Não obriga a fábrica a adaptar-se, mas o contrário”, explica, sublinhando a diferença na capacidade de se integrar nos ambientes por ser humanoide.

 

 

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