Ruy de Carvalho declara “amor eterno” a Lisboa na entrega da Medalha de Honra da cidade

Ruy de Carvalho foi esta segunda-feira, dia 14 de setembro, homenageado pela Câmara Municipal de Lisboa, recebendo das mãos do presidente da autarquia, Carlos Moedas, a Medalha de Honra da cidade. O Município destaca “excecional carreira artística” do Ruy de Carvalho de 99 anos, o mais velho ator em atividade no mundo, que contribuiu para a projeção da vida cultural lisboeta. O homenageado declarou o seu “amor eterno” à cidade que o viu nascer, admitindo que “Lisboa é um vício”.

A Câmara Municipal de Lisboa entregou ontem a Medalha de Honra da Cidade a Ruy de Carvalho. A distinção reconhece a excecional carreira artística, a ligação estreita à cidade e o exemplo cívico do ator. O Município destaca, na proposta aprovada no passado mês de junho em reunião de câmara, a “excecional carreira artística” de Ruy de Carvalho

Rui Alberto Rebelo Pires de Carvalho (Ruy de Carvalho, como é conhecido), nasceu em Lisboa, a 1 de março de 1927, tendo construído uma carreira artística de exceção. Nascido em Lisboa, a 1 de março de 1927, estreou-se como ator aos 9 anos e, aos 99 anos, é atualmente o mais velho ator em atividade no mundo.

A Medalha de Honra da cidade destina-se a galardoar pessoas associações que prestem à cidade de Lisboa “serviços de grande relevância”, outorgando ao agraciado o título de “cidadão de honra de Lisboa”.

Para Carlos Moedas, “a história de Lisboa não se conta apenas através dos seus monumentos, das suas ruas, das suas praças. Conta-se, sobretudo, através das pessoas que lhe dão vida, da sua arte, da sua voz, da sua emoção”, afirmou o autarca na homenagem, realizada nos Paços do Concelho, em Lisboa.

“E há vozes que ficam, que atravessam gerações, que entram nas nossas casas, que passam a fazer parte das nossas memórias. A voz do Ruy de Carvalho é uma dessas vozes”, realçou o presidente da Câmara Municipal de Lisboa.

“Por isso, hoje Lisboa faz uma pausa. Uma pausa para agradecer. Porque há gratidões que não podem ficar por dizer. E há vidas que merecem ser celebradas enquanto podemos olhar nos olhos de quem viveu, enquanto podemos dizer obrigado, enquanto podemos aplaudir de pé. E hoje é um desses dias”.

O autarca salientou que o homenageado se destaca na sociedade por ter, ao longo da vida, “três dimensões: o contador de histórias, o mestre e o defensor da cultura”. Uma cidade, acrescentou, “torna-se maior quando sabe reconhecer aqueles que a engrandecem”.

Ruy de Carvalho é hoje “reconhecido como o ator jovem há mais tempo em atividade no mundo”, disse Carlos Moedas. Ao longo de quase um século, “ajudou Lisboa a contar-se nos palcos, na rádio, na televisão no cinema, em cada personagem, em cada palavra, mas também em cada silêncio. Porque um grande ator não precisa sempre falar. Às vezes basta um olhar, um gesto, uma pausa”, acrescentou Carlos Moedas, na homenagem que encheu o Salão Nobre dos Paços do Concelho.

Amor eterno à cidade de Lisboa

Coube à filha do ator, que tem assumido o papel de porta-voz da família, o papel de transmitir as palavras de agradecimento do ator. Lendo as notas do pai, Paula de Carvalho fez uma retrospetiva da vida e da carreira do artista, lembrando que Ruy de Carvalho nasceu em Lisboa, na Costa do Castelo, numa terça-feira de Carnaval, pelo que “mais alfacinha que isto era quase impossível”, só se tivesse “nascido dentro do próprio Castelo (de São Jorge)”.

Após recordar os primórdios da vida de “saltimbanco” de Ruy de Carvalho, que passou por Angola, novamente Lisboa, Évora, mas também na Covilhã, onde foi segundo comandante do Regimento de Infantaria 1, o ator recordou o casamento com Ruth Maria, “a minha adorada Ruth” com quem passou a viver “em muitas casas, mas, felizmente, sempre em Lisboa” – apenas o amor pelo mar da mulher o fez sair da cidade “que tanto amo”.  Mas “o amor por Lisboa nunca esmoreceu, nunca despareceu” por que “não há cidade no mundo tão bela como a cidade das sete colinas”. Observar a cidade com vista de pássaro, em viagens de avião, “é das coisas mais belas que há”.

“A minha filha trabalhou fora de Portugal e diz que chorou a primeira vez que aterrou em Lisboa. Lisboa é um vício, que precisa de ser alimentado com qualidade. Para os lisboetas, mas também quem nos visita, para sentirem que a cidade está a par de todas as novidades, em todas as áreas”, declarou.

Ruy de Carvalho finalizou o depoimento declarando “ser uma honra receber esta medalha”, até porque, desta feita, “foi a minha cidade natal a dar-me esta honra”, algo que “não podia deixar-me mais feliz”.

“Obrigado a todos. Levo-vos a todos no meu coração”, concluiu.

Carreia ímpar em talento e longevidade 

Ruy de Carvalho começou no teatro em 1942, com a peça “O Jogo para o Natal de Cristo”, tendo posteriormente frequentado o Conservatório Nacional. Estreou-se profissionalmente em 1947, no Teatro Nacional, na comédia “Rapazes de Hoje”, e destacou-se, a partir de 1950, na peça “Está lá Fora um Inspector”, de J. B. Priestley, no Teatro Avenida. Em 1961, fundou o Teatro Moderno de Lisboa, estrutura pioneira dos teatros independentes no nosso país.

A sua atividade estendeu-se ainda à rádio, à televisão e ao cinema, tendo participado em peças radiofónicas, dobragem de filmes de animação. Na televisão, foi protagonista de centenas de personagens e inaugurou o “Teatro na Televisão”, em 1957, com o “Monólogo do Vaqueiro”, de Gil Vicente, permanecendo ainda hoje na memória das várias gerações que o viram em séries e novelas como “Vila Faia”, “Origens”, entre muitas outras.

Em 1998, protagonizou “Rei Lear”, de William Shakespeare, no Teatro Nacional D. Maria II, interpretação que é unanimemente recordada como um momento maior do teatro português.

Entre as condecorações atribuídas pelo Estado Português, destacam‑se a Comenda da Ordem Militar de Santiago de Espada, a elevação a Grande Oficial da mesma Ordem, a Comenda e a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, bem como a Grã-Cruz da Ordem de Mérito e a Grã-Cruz da Ordem Militar de Santiago de Espada, espelhando o mais elevado reconhecimento pela sua contribuição para a cultura nacional.

Foi, ainda, distinguido com a Medalha de Mérito Cultural de Lisboa.

Para além do percurso artístico, Ruy de Carvalho exerceu relevantes funções cívicas, designadamente como presidente do Conselho Nacional para a Política da 3.ª Idade, presidente da Comissão Executiva do Ano Internacional das Pessoas Idosas, em 1999, e um dos sócios fundadores da Casa do Artista.

Lisboa é a cidade natal de Ruy de Carvalho, e o principal palco da sua vida e carreira, tendo sido na capital que o ator se formou, se estreou e consolidou grande parte da sua atividade artística, em particular no Teatro Nacional D. Maria II, no Teatro Moderno de Lisboa e em diversas salas e companhias da capital.

Ao longo de várias décadas, Ruy de Carvalho contribuiu decisivamente para a projeção da vida cultural lisboeta, aproximando o teatro, a televisão e o cinema dos públicos da cidade, inspirando sucessivas gerações de artistas e espectadores e afirmando Lisboa como referência cultural no panorama nacional e internacional.

A sua imagem pública, marcada por uma notável proximidade humana, pelo respeito intergeracional e pela defesa da dignidade da pessoa idosa, contribuiu de forma relevante para a afirmação de valores de solidariedade, cidadania e coesão social que se identificam inquestionavelmente com os princípios fundamentais da cidade.

Represas lembrado por filho de Ruy de Carvalho

A cerimónia contou vários momentos musicais, numa homenagem ao fado e as guitarras portuguesas, símbolos da cultura da cidade.

O também ator João de Carvalho, filho do homenageado, aproveitou a cerimónia para prestar um tributo “a outro grande lisboeta”, o cantor Luís Represas, que morreu há poucas semanas. João de Carvalho interpretou o tema “Perdidamente”, emocionando os presentes na homenagem ao seu pai, mas também ao seu amigo de décadas, o líder dos Trovante.

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