Manifestantes continuam acampados no Rossio para contestarem “lei dos despejos”

Em Lisboa, no Rossio, a acampada pela habitação promete não desmobilizar até que o Governo dê um sinal claro de que irá tomar medidas concretas para a crise da habitação. Nesta segunda-feira à tarde, o “Olhares de Lisboa” esteve no local e conversou com alguns manifestantes. O protesto está a merecer a solidariedade de muitos, mesmo aqueles que têm um teto para dormir. 

Há uma centena de tendas, centenas de manifestantes, uma cantina social, um espaço de crianças, um free-shop, com roupas doadas e que podem ser levantadas por quem precisar. Alguns dos manifestantes tapam a cara com lenços, para não serem reconhecidos através das câmaras de televisão, mas a maioria anda por lá sem medos ou receios de dar a cara. Conversam entre eles, debatem ideias e confraternizam à porta das tendas ou junto à estátua de D. Pedro V, que ficou pejada de cartazes com frases de luta pela habitação.

A acampada do Rossio, que surgiu na sequência dos protestos da cidade do Porto, promete não desmobilizar. Alguns manifestantes admitem não se sentirem confortáveis com “a exposição” do protesto e preferem manter-se “discretamente ativos”.

Casa e vida digna  

Não é o caso de João Reis, que veio da Margem Sul, tem casa própria, mas veio mostrar a sua solidariedade para com o movimento. Operário especializada na AutoEuropa, andou de tenda em tenda a conversar com os manifestantes e com alguns daqueles que pernoitaram no local. “O problema está à vista de todos. Há uma crise gravíssima no mercado da habitação e é praticamente impossível as pessoas acederem a uma casa, para terem uma vida diga. Este é um problema que não é só daqueles que aqui estão, é de praticamente toda a gente, é um problema que merece ser contestado na rua. As pessoas devem manifestar essa exigência ao Governo, que tem andado em contramão em resolver os problemas da população”.

Para João Reis, as agressões da polícia de intervenção aos manifestantes do Porto, na passada sexta-feira, revelam que o Governo “está a transformar o debate num caso de polícia”, fugindo do tema que está na origem do protesto: “habitação condigna para todos” para um “suposto combate à desordem pública”, numa clara tentativa de “manipular a realidade”, como “ficou provado nas imagens que foram gravadas no local”.

O operário, que é também delegado sindical na referida multinacional alemã, salienta que, do ponto de vista legal, “não há aqui qualquer impedimento à circulação, não há ocupação de património público, não há distúrbios, e é uma ação legítima e pacífica”, diz, lembrando que há inclusive “a dinamização de espaços culturais” e “uma cantina onde qualquer um pode vir aqui comer”, mas também debater “os problemas que afetam grande parte da população”.

João Reis reforça ainda que o Governo “não consegue explicar” os dados que dizem que, depois de pagar as despesas com a habitação, “há 27% da população que fica no limiar da pobreza”.

Para o manifestante, o Governo vai ter de repensar toda sua estratégia para a habitação. “Há, desde já, uma vitória dos manifestantes. A habitação era um tema que era sentido pela população como um problema real, mas não havia uma dinâmica mais forte de contestação. Agora, no contexto da nova lei das rendas – para nós é a lei dos despejos – do Governo não houve uma resposta à altura. Com estas acampadas, conseguiu-se trazer para o debate público o tema da habitação, que afeta todo a população de norte a sul do país, e que já está a ser oportunisticamente aproveitado pelo Chega e a Iniciativa Liberal, os mesmos partidos que deixaram passar a lei, e que agora querem capitalizar votos e agradarem à opinião pública”.

O operário exemplifica com um caso real (e pessoal) as mudanças drásticas ocorridas no mercado imobiliário nos últimos tempos. “Vim viver para a área metropolitana de Lisboa há 15 anos. Na altura, conseguia-se arrendar um T1 na zona do Barreiro por 200 euros. Hoje em dia, o mesmo apartamento está a ser arrendado pelo triplo ou o quadruplo. Mas o problema não tem só a ver com o arrendamento. Quem comprou casa na altura em que era possível fazê-lo, como foi o meu caso, debate-se hoje com muitas dificuldades para cumprir perante a banca. Sou da Comissão de Trabalhadores na Autoeuropa e já temos muitos trabalhadores na empresa que vêm ter connosco a alertar para o garrote financeiro por conta da subida dos juros para pagarem as suas casas”.

Ensaio “para outras maneiras de viver” 

Francisca está à espera de um amigo junto à entrada do protesto. Tem uma figura delicada e respira dignidade por todos os poros do corpo. Permanece serena, a observar as movimentações da acampada. Diz ao “OL” que “tem a sorte de ter casa”, ainda que esteja a morar em casa de familiares, em Lisboa. Depois de fazer um breve compasso de espera antes de responder às questões, Francisca considera que este protesto “vai muito além da habitação”. “O foco do protesto é muito mais vasto. Constitui uma tentativa de ensaiar outras maneiras de viver. E é isso que me interessa nesta luta. Não poderia deixar de participar num protesto que contesta uma forma de fazer as coisas, que não faz sentido algum” para a maioria da população.

A jovem, que é música, admite que a sua presença é também uma forma de contestar o status quo da realidade social que hoje é sentida em Portugal.  “A revolução é um processo, não é um evento. A revolução faz-se contrariando e protestando no dia a dia contra a forma como o capitalismo selvagem nos obriga a viver. Sempre que há gestos, passos, que contrariam a lógica neoliberal de fazer as coisas, já estamos a fazer algo de revolucionário”.

Para Francisca, que prefere não revelar o apelido, esta acampada “ultrapassa a questão moral daquilo que é justo ou injusto”, sendo antes “uma evidência de que as coisas não podem continuar como estão”, assegura.

Segundo alguns dos manifestantes, a acampada não vai ser desmobilizada durante a noite. E prometem permanecer no local até que haja um sinal claro de que o Governo tome medidas concretas para reverter os problemas da habitação em Portugal.

Na assembleia popular de domingo, realizada no local do protesto, os participantes aprovaram manter a acampada enquanto puderem e se, entretanto, forem forçados a retirar as tendas aprovaram, entre quase duas dezenas de propostas, promover assembleias “todos os dias”, pelas 19h00, até que vejam medidas concretas para a crise da habitação.

Quer comentar a notícia que leu?