Colares é porto de abrigo para modos vida tradicionais aliados ao cosmopolitismo trazido pelos “novos” colareneses

Colares é hoje um verdadeiro “melting pot” de culturas ancestrais e novos hábitos trazidos pela população estrangeira que habita nos verdes vales da freguesia. Desde sempre ligada à imagem de “refúgio dos ricos e poderosos”, soube preservar como poucas a sua identidade e modos de vida sintrenses. Com uma forte ligação à terra e ao mar, a população local convive com os novos residentes (portugueses e estrangeiros) em perfeita harmonia.  Fomos conhecer as histórias de alguns colarenses de nascimento e dos filhos adotivos da terra.

Antiga sede de concelho, é uma das freguesias da zona de Sintra mais procuradas para quem aprecie a tranquilidade e uma vida desacelerada. Ao longo da sua história recente, sob o chapéu do reconhecimento da UNESCO de Sintra como Património Mundial, Colares tem sabido aproveitar a projeção internacional para atrair uma nova legião de moradores, tanto portugueses como estrangeiros, para habitarem nos casarios, quintas e mansões espalhadas pelas imediações da freguesia — residências com preços inalcançáveis para o comum dos mortais.

Quem passear pelo território, pode ver com frequência a circulação de veículos topo de gama, de marcas premium, como Bentleys, mas também tratores e outros veículos de trabalho, numa simbiose única de classes sociais.

Inserida no Parque Natural de Sintra, a localidade tem fama de ser o abrigo de várias figuras públicas e de gente com muito poder económico. Foi em Colares que, por exemplo, o escritor Miguel Esteves Cardoso se refugiou nos últimos anos para refletir e escrever as suas famosas crónicas, assumindo a região de Colares um tema recorrente na sua escrita, tendo o autor dedicado várias crónicas ao estilo de vida, à humidade e às praias da zona (como Almoçageme e Azenhas do Mar).

Não é caso único. No passado, grandes nomes da literatura dedicaram páginas e páginas de descrições literárias aos mistérios de Colares, deixando-se fascinaram por estas terras, escritores como Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Alexandre Herculano, William Beckford, entre tantos outros —  Arthur Conan Doyle (criador de Sherlock Holmes) viveu uma temporada em Colares, na época em que a II Guerra Mundial arrasava a Europa.

Mas nem só de condes, viscondes, artistas e personalidades da alta finança se alimenta Colares. Terras férteis e dos afamados vinhos de Colares, produzidos com a casta autóctone Ramisco, continuam a produzir produtos hortícolas de qualidade superior, com muita gente a dedicar-se à terra e à lavoura.

Personagens “da terra”

O sr. José é um deles. Numa manhã como outra qualquer, o agricultor caminha assobiando uma melodia antiga pelo centro da vila, trajado com a roupa de trabalho e as botas de borracha com que evita molhar os pés, nos terrenos húmidos fronteiros à vila.

Diz que vai comer “uma bucha” e “descansar um pouco” porque “o dia já vai longo”. Quando o “OL” lhe solicita autorização para o fotografar, responde, bem-humorado: “Ó homem, com esta fronha, posso partir-lhe a máquina…”.

Mas a sério, revela que tem várias hortas, donde retira o sustento “há muitos anos”. A produção é vendida a intermediários, mas também a “muitos restaurantes da zona e mesmo de Lisboa”.

Assume que a sua terra “sempre foi muito procurada por estrangeiros e gente endinheirada” e que “são todos bem-vindos”, desde que “respeitam as gentes de Colares” e seus modos tradicionais de vida.

Andrea vive em Colares há 1 ano. Vinda da Suíça, passeia pela vila, entrando em algumas lojas e fazendo compras de produtos locais. A cidadã helvética revela que se mudou para Colares depois de visitar vários locais “mais tranquilos perto de Lisboa”. Vinha com a ideia de se mudar para Cascais, mas rapidamente mudou de opinião, por constatar que o concelho da linha “é um caos”, com um “trânsito infernal”, pejado de turistas e de uma realidade urbana que não corresponderia ao sítio idílico idealizado para onde se queria mudar.

A cidadã suíça conta-nos que, depois de visitar Colares, ficou rendida ante “a beleza natural da vila”, mas também pelo facto de “estar perto de Sintra”, de ser banhada pelo oceano atlântico e de “ter praias fantásticas”, bem como ter “autoestradas que rapidamente me permitem ir a Lisboa”.

Depois de enumerar as vantagens plausíveis de morar em Colares, Andrea sublinha que foi conquistada por outro fator decisivo: “A gentileza das pessoas”, que diariamente se cruzam no seu caminho e a fazem “sentir bem acolhida” e “plenamente integrada” nas dinâmicas particulares de um território hospitaleiro, mas que continua a preservar as suas idiossincrasias tradicionais.

Aberto há dois anos no centro da vila, o espaço Cool Ares já se transformou num local de peregrinação gastronómica, tanto para os muitos estrangeiros que vivem na zona, como para os habitantes locais.

Este restaurante vai muito além do conceito tradicional. Está dividido em várias salas, conta com um espaço de cowork, onde vários clientes (estrangeiros e portugueses) trabalham compenetrados, é também galeria de exposições para os criadores locais, tem um jardim e uma esplanada onde se pode petiscar, beber um copo ou simplesmente relaxar.

Gonçalo Cruz, que também é dono de dois ginásios, explica ao “OL” que o conceito de negócio nasceu de um desejo antigo de revitalizar o lugar onde a família de Gonçalo trabalhou por largas décadas: uma antiga pensão dos seus bisavós, que foi posteriormente alugada e transformada em restaurante, que acabou por falir.

Gonçalo Cruz conta que discutiu a hipótese de transformar com um amigo, ambos de Colares, num espaço que “combatesse a ideia dos restaurantes tradicionais” que tinham estado no local, apontando para uma oferta “mais descontraída e contemporânea”, nascendo, assim, um restaurante casual, especializado em brunchs.

O novo espaço de brunch da localidade foi inaugurado no final do ano de 2024. A ideia de Gonçalo Cruz e Bruno Oliveira era criar o primeiro conceito do género na vila e encontraram o local ideal num espaço que em tempos pertenceu à família de Gonçalo.

“Durante os anos 1970, a minha bisavó era cozinheira e tinha um restaurante em Colares, na parte de baixo de uma pensão que pertence à minha família. Pelas histórias que ouvia em miúdo, vinham clientes de toda a parte para provar os seus cozinhados tipicamente portugueses”, conta ao “OL”.

Embora houvesse historial de trabalho na hotelaria na família, Gonçalo nunca pensou em seguir-lhes os passos. Professor de Educação Física, é proprietário de dois ginásios, os Cool Gym, em Colares e na Ericeira. Foi apenas quando percebeu que não havia nada do género na zona que começou a pensar no assunto.

“Quando conversávamos sobre esta ideia, disse que gostava que fosse no antigo restaurante da minha família. Na altura estava a ser alugado a outras pessoas, mas eu sabia que estavam com dificuldades. Quando saíram, falei com o meu pai e fizemos uma proposta para ficarmos com o local”, explica.

“Queríamos criar um espaço de partilha, onde os moradores quisessem passar tempo em família ou com amigos”, refere o empresário. Com isso em mente, criaram uma carta onde não faltam os produtos típicos de um brunch, como os ovos e as panquecas, mas também outros pratos de partilha, com inspirações internacionais.

O objetivo, sublinha o empresário, é atrair a presença dos estrangeiros, mas também dos habitantes da vila e dos trabalhadores que passam pela zona, oferecendo uma carta descontraída e acessível para todos os bolsos.

Além do mais, Gonçalo Cruz diz que “é um apaixonado por Colares” e que “não há nenhum lugar idêntico” dentro e fora de portas, pelo que o passo de investir num negócio de restauração “foi algo arriscado”, mas cumpriu o objetivo de resgatar as memórias antigas e dar seguimento à tradição familiar.

No mesmo sentido, o proprietário do restaurante revela que é também objetivo dinamizar a economia circular da zona, “ajudando a economia local”, adquirindo os produtos do seu espaço, “sempre que seja possível”, aos produtores locais da terra ou da zona de Sintra. Os legumes e as frutas são maioritariamente colhidos nas terras férteis de Colares, assim como o vinho, em que o Colares é rei, mas também néctares de “pequenos produtores de vinho” da zona ou de outras áreas menos óbvias.

Na visão do empresário, esta opção de negócio tem dados bons resultados, por que demarcam o Cool Ares da demais oferta gastronómica da zona.

Gonçalo Cruz confessa que, pese embora o seu objetivo seja o de oferecer uma cozinha despretensiosa, os pratos internacionais têm sido muito bem recebidos pela clientela – ao não fosse Colares uma das vilas mais cosmopolitas da zona.

As propostas de pequeno almoço e brunch estão disponíveis durante todo o dia, a qualquer hora. Uma característica que o proprietário aponta como a razão do sucesso do negócio. “Apostámos no conceito com algum receio porque não existia nada do género nesta área e agora percebemos que estávamos certos”, explica, acrescentando que o facto de ser permitido que os clientes fiquem a trabalhar durante o dia no espaço constituiu outra razão para o sucesso de uma casa que estava fechada, mas que, agora, é um dos sítios mais vibrantes da freguesia.

Também natural de Colares, Marisa Morais é proprietário de uma loja de artesanato e de decoração, a Pau de Canela. O espaço está geometricamente arrumado, pejado de peças de artesanato local, cheio de cor e brilho. Os turistas e os estrangeiros, assim como portugueses, que vivem na zona são visita habitual e a comerciante não se queixa da vida.

Marisa Morais conhece a vila como as palmas das suas mãos. Já assistiu ao apogeu e à quebra do movimento na vila. Diz que, depois de pandemia de covid-19, “muita gente que tinha aqui casa, e só cá vinha aos fins de semana ou nas férias, mudou-se para cá definitivamente. Esse novo fluxo de pessoas, com poder económico, trouxe um novo dinamismo à vila”, sustenta.

Entretanto, os jovens empreendedores, como Gonçalo Cruz, trouxeram um balão de oxigénio para a sustentabilidade económica da vila. “Foram criados novos negócios, que atraíram mais pessoas e uma clientela nova para o centro da vila”, confessa.

Para Marisa Morais, o facto de Colares estar envolvida numa aura de mistério, cosmopolitismo, combinada com tradições ancestrais, fazem da vila o “sítio ideal para viver”, uma vez que agrupa o verde da Serra de Sintra com a frescura inconfundível do Atlântico, bem como a história e o peso das tradições seculares com as novas tendências trazidas por uma nova população proveniente de vários destinos.

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