Massamá e Monte Abraão assumem protagonismo no concelho de Sintra

Este ano, a Câmara Municipal de Sintra decidiu descentralizar as comemorações do 25 de Abril. A União de Freguesias de Massamá e Monte Abraão vai ser palco das celebrações da data histórica. Fomos conhecer a opinião dos moradores sobre esta mudança estratégica do Município de Sintra e aproveitámos para solicitar a opinião dos moradores sobre as mudanças no poder local sintrense.  

João Oliveira varre com precisão cirúrgica as folhas secas e o lixo acumulado num cantinho do Parque Salgueiro Maia, na União de Freguesias de Massamá e Monte Abraão. Já está informado que o mesmo equipamento municipal vai ser epicentro das celebrações do 25 de Abril do concelho de Sintra.

Durante dois dias, 24 e 25, o Parque que leva o nome do herói do 25 de Abril, Salgueiro Maia, vai ser palco de uma série de concertos, desfile de bandas filarmónicas, atuação de ranchos folclóricos, que prometem trazer milhares de pessoas do concelho até ao território.

O trabalhador da Junta “acha muito bem” que as Festa do 25 de Abril se realizem no Parque e encolhe os ombros quando confrontado com o trabalho redobrado que vai ter por esses dias. “É o meu trabalho e faço-o com gosto. É bom vermos este parque cheio de gente, de juventude e de alegria”, como é habitual nos fins de tarde, mas o facto de receber as celebrações da efeméride não assusta João: “Ainda bem que este ano se celebra o 25 de Abril na nossa freguesia. As pessoas daqui merecem ter as celebrações da data no lugar onde moram. Eu sei que vou ter mais trabalho, mas faz parte…”.

Pregadora “apolítica” vive em Massamá desde os tempos rurais

Dona Maria tem 81 anos. Tem no regaço uma publicação dos Testemunhas de Jeová. Está sentada num banco no exterior do Parque, acompanhada de uma amiga, que também dá pelo nome de Maria — “no nosso tempo, havia muitas marias”, brinca.  Antes de prestar declarações ao “OL”, esclarece que é apartidária e “apolítica” e que está mais interessada em “divulgar a palavra de Deus” do que “em comentar as coisas dos homens do mundo”.

Depois de a conversa fluir em pouco, confidencia que veio viver para Massamá “há mais de 50 anos”. E que ainda é do tempo que os terrenos onde está hoje sediado o Parque e o aglomerado de prédios de habitação eram ocupados com quintas, com produtores de leite e agricultores. Mal Dona Maria adivinharia a transformação demográfica e social que iria tomar conta de toda área.

“Tenho cinco filhos e criei-os com o leite que comprava a um senhor que tinha vacas – já deve ter morrido. Tudo isto eram quintas e terrenos agrícolas. Acompanhei toda mudança e o crescimento desta freguesia, que é hoje um local onde moram milhares de pessoas. Como todos os lugares, tem coisas boas, que são muitas, mas também algumas negativas. Faltam lares para as pessoas idosas que não têm condições financeiras para serem acolhidas pelos lares”, anota.

De resto, pondo acento tónico que “não gosta de festas”, não considera, todavia, que os festejos do 25 de Abril na localidade tragam mal ao mundo, mas “os moradores dos prédios aqui ao lado, como a minha filha, sofrem com o barulho da música, mas a juventude gosta e diverte-se, quem sou eu para criticar?!”, reconhece, acrescentado, todavia, que é defensora do progresso e que gosta de morar na freguesia.

O elogio da “qualidade de vida” sintrense

Luís Bento é dono de uma imobiliária, situada na rua onde o Real Sport Clube tem a sua sede (R. Firmina Celestino Cardoso) e tem acompanhado o crescimento demográfico da freguesia. “Fui criado nestas ruas e ainda me lembro dos meus tempos de infância. Deslocávamo-nos para a escola a pé, tanto para a primária como no secundário. Esse fator, é determinante para os pais terem a tranquilidade necessária nas suas tarefas. Aliás, o facto de as crianças poderem ir para a escola a pé representa qualidade de vida, que já não existe em outros grandes centros urbanos”, sublinha.

O consultor desconhecia a realização das celebrações do 25 de Abril do Município de Sintra no Parque Salgueiro Maia. “Já tinha ouvido falar vagamente do assunto, mas não sabia que a Festa do 25 de Abril de todo o concelho era aqui. Ainda bem que assim é. O local tem as condições adequadas para este tipo de eventos, até porque já recebeu imensas festas que trouxeram muita gente até cá e correram sempre muito bem”.

O consultor, que hoje em dia vive na zona de Negrais, ressalva que Massamá e Monte Abraão “estão precisamente no centro geográfico do concelho”, pelo que é da mais “elementar justiça” que o Município descentralize este “grande acontecimento” para duas das freguesias mais vibrantes do concelho — onde, diga-se, continua a residir um ex-primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho.

Luís Bento anota que o facto de Massamá-Monte Abraão ter registado uma “notável evolução” ao longo das últimas décadas, não traduz a redução da qualidade de vida, até porque “está bem servida de transportes, tem o IC19 a dois passos, comboios, mas também muito comércio local e grandes superfícies, que convivem lado a lado”. O empresário anota que a simples existência de muitos pequenos comércios e a vinda de grandes supermercados para o território simboliza a coexistência pacífica entre duas realidades paralelas, mas necessárias para representarem um modo de vida mais tradicional com outro mais sedento de novidades.

A Câmara de Sintra e a Junta da UFMMA mudaram de mãos nas últimas eleições autárquicas, Marco Almeida (PSD/IL e PAN) ganhou a liderança do Município e João Cabral (PS/LIVRE) conquistou a Junta. Luís Bento reconhece que Marco Almeida “já merecia o cargo”, por se ter candidatado contra Basílio Horta por duas vezes e não ter conseguido ser eleito presidente. De ambos, espera poder de iniciativa para concretizarem os seus projetos políticos, mas mostra-se “confiante” na mudança de liderança de ambas as instituições autárquicas. “Se retiramos as politiquices da discussão, acredito que ambos farão um bom trabalho, pois são pessoas que se movimentam muito bem em realidades que conhecem em profundidade. João Cabral (presidente da União de Freguesias eleito pelo PS/LIVRE) já tinha integrado o anterior executivo da Junta. Marco Almeida também é um homem do concelho e já tem experiência autárquica (vice-presidente do Município no mandato de Fernando Seara). Acho que irão desenvolver um bom trabalho e desencadear uma nova onda de desenvolvimento no concelho”, atira.

O minhoto que gosta da tranquilidade de Massamá 

Luís Melo trabalhou “muitos anos” no ramo da hotelaria em Lisboa. Hoje, está reformado e vive a vida sem pressas. Depois de ter habitado em vários bairros da capital e na Amadora, foge como diabo da cruz de “aglomerados” e evita “barulhos” e “confusão”. Quiçá por isso não mostre muito impressionado com o facto da festa do 25 de Abril ocorrer a dois passos do seu apartamento. “Nem sabia que se ia realizar aqui o evento, mas eu quero é estar no meu canto descansado. Se possível, sem barulho”, confidencia, enquanto passei o cão numas das artérias laterais ao Parque.

Minhoto de gema, Luís Melo (faz questão de brincar que o Melo “só leva um L”) “não liga a políticas”, mas confessa que votou em Marco Almeida, por influência de um amigo, acreditando, contudo, que o autarca social-democrata “ira fazer um bom trabalho”. “Pelo que se sabe, está bem encaminhado, mas ainda é cedo para fazer uma avaliação mais rigorosa”, atira, acrescentando que, depois de ter vivido em vários sítios de Lisboa e da Amadora, “não troco Massamá por nenhum outro local”.

Falta de civismo na origem dos problemas de higiene urbana  

Miguel Barros já vive em Massamá, numa das principais avenidas, há cerca de 30 anos. Sublinha que tem acompanhado a evolução da freguesia atentamente e que o progresso “é notório” e “irrefutável”. A Massamá de hoje “já tem pouco a ver com a freguesia que era quando para aqui vim viver”. O morador considera que toda esta zona teve um salto quântico de progresso. “Esta área do concelho de Sintra é das zonas com maior densidade urbana na Grande Lisboa. Esse crescimento tem sido bem acompanhado por políticas autárquicas que refletem a procura crescente de habitação”.

Com o crescendo “imparável” do número de moradores, as ruas começaram a dar “alguns sinais e problemas”, como os registados na higiene urbana. Mas Miguel Barros não considera que o poder autárquico deva ser responsabilizado pelo “lixo abandonado” ao acaso. O morador aponta antes baterias para “a falta de civismo de algumas pessoas, que deixam o lixo na rua para não terem que andar mais alguns metros”.

Miguel Barros sublinha que “não tem partido” e não gosta de criticar de ânimo leve quem exerce o poder autárquico “o melhor que sabe e pode”. No seu entender, tanto o presidente de Junta como o presidente de Câmara anteriores “realizaram um bom trabalho para resolver os problemas de Sintra e de Massamá-Monte Abraão. Há coisas a melhorar? Com certeza que sim, mas não tenho nada a apontar a nenhum deles porque governaram uma das áreas geográficas do país mais povoadas e isso passa fatura”, reconhece.

Face à mudança de lideranças protagonizada por Marco Almeida e João Cabral, Miguel Barros diz-se esperançado que “façam um bom trabalho”, até porque são autarcas de ação, que não ficam retidos nos gabinetes do poder, “que andam no terreno e de grande proximidade com os problemas das populações”, conclui.

Uma “esquerdista” pragmática

Cátia assume-se como “jovem idealista com valores bem à esquerda”. Nascida e criada em Monte Abraão, divide a vida entre Monte Abraão e Lisboa, onde estuda num curso de letras durante o dia e trabalha à noite num bar “para ajudar a pagar as contas”.

Apesar do seu “esquerdismo”, confessa que votou “sem hesitar” em Marco Almeida para a Câmara e em João Cabral para a Junta. O pragmatismo da política local impôs-se ao “idealismo” na hora de depositar os seus votos nas urnas das eleições autárquicas.

“O Marco Almeida e o João Cabral são filhos da terra e sabem melhor do que ninguém aquilo que é preciso para porem Sintra nos eixos. Continuamos a ter alguns problemas de segurança, principalmente nos comboios, mas é o Governo deve dar condições às pessoas para que tenham oportunidades, acesso à educação e vidas dignas. Não são as autarquias que resolvem os problemas que deveriam ser da responsabilidade do Estado central”.

A jovem assume que, mesmo depois de ter uma carreira universitária, não virará as costas às suas origens e quer permanecer em Monte Abraão “por muitos anos”. Cátia considera que a freguesia, “feita de pessoas que vieram de vários destinos”, continua a “estar perto de tudo o que é importante, como Lisboa, a vila de Sintra, as praias, mas o suficientemente afastada de realidades sociais em que as cidades “já perderam a alma”, como “autênticas disneylândias” para turistas.

De supetão, a jovem moradora lembra-se que tem de ir apanhar o comboio para Lisboa. Guarda apressadamente um livro escrito por David Lodge (“O Mundo é Pequeno”) na mochila e faz um sprint até à porta da estação de comboios, despedindo-se efusivamente.

 

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